quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

DIÁLOGOS ENTRE ARTE E PSICOTERAPIA

A arte em si não necessariamente busca o encontro com o real, mais se esbarra por sua vez na amostragem da realidade por suas particularidades que se tornam reconhecidas através da percepção.
Os movimentos analíticos de interpretação promovidas ao setting, exigem criatividade e experimentação ao analista, e isso está absolutamente ligado à artena prática psicoterapêutica.
Ambas as composições, me refiro a arte e a psicoterapia, lidam exatamente com a mesma materialidade, que se encontra representadas sensivelmente pelas experiências humanas.
Nesta perspectiva a Psicanálise e cinematografia se encontram no mesmo percurso contemporâneo, onde alguns termos e procedimentos que temos pelas composições cinematográficas estão presentes na Psicanálise. Por estes me refiro à hipnose, fascinação e identificação.
Permito-me começar pelo cinema por sua relação estrita com a Psicanálise, onde pelo menos 4 anos depois da primeira aparição pública de cinema, Freud lançou seu livro “A Interpretação dos Sonhos” onde teorizou grande parte dos conteúdos acerca das dinâmicas oníricas.
Desta forma, é justamente com a abordagem do sonho que a Psicanálise se fundou como teoria do homem, destituindo-se das compreensões psicopatológicas. Assim pelo lançamento de sua obra, Freud se defendeu contra a opinião geral da ciência reconhecendo uma produção fundamental do indivíduo, e uma via aberta para a análise e o inconsciente.
Neste sentido, Freud também se apoiou não só do cinema, mais também das construções dramatúrgicas de Sófocles,onde pareou conceitos primordiais de sua prática, como o de triangulação edípica.
Descobrimos então que, a abertura para o mundo artístico nos traz perspectivas de vértices muito além dos estabelecidos, e nos confrontam aos encontros transformadores e positivos, produtores de novas intensidades, percepções, afetos, o que nos permite uma simbolização em aberto com o mundo muito próximo do real.
Este diálogo está em concordância com a proposta bioniana de psicoterapia(sem memória, sem desejo ou compreensão)onde nos sugere por sua técnica, abrir mão dos falsos limites psicológicos, para entãopromover a expansão dos elementos psíquicos inovadores.
Neste mesmo contexto, Bion também afirma que na clínica, o analista pode ser como um cientista, um artista e um teólogo, o que nos sugere muito mais diligência e jogo de cintura. Assim, a função do artista-analista está em função de um vértice que aumenta a capacidade de percepção e de sensibilidade aos afetos.
Neste percurso artístico temos ainda a imagem para além da arte, somos constituídos por imagens, inicialmente a de nós mesmos (concebida entre os primeiros 6 e 18 meses de idade) até o desenvolvimentopara a identidade por assim dizer.
Aqui entra um ponto interessante deste diálogo, onde a imagem ao mesmo tempo possui duas características aparentes, observa-selimitada ou expansiva.
Limitada em caso de nos mantermos fixados ao que ela pode oferecersomenteenquanto estética, porém expansiva, quando nos reconhecemos como sujeito para além dela, transpassando assim o bloqueio inicial dessa alienação manifesta e nos integrando para além do que se vê. Assim podemos dizer paradoxalmente que somos e não somos tal imagem. 
A imagem nos remete aos sonhos, o que nos liga novamente ao empreendimento do inconsciente, onde é observável pelas obras de Dalí resoluções condensadas do real em formas fantasiosas e distorcidas.
Enquanto psicoterapia, a imagem também possui uma função dentro do setting, o processo do reconhecimento daquilo que nos é íntimo é dado por certa imagem, uma vez que descoberta verdades, podemosnos apegar somente no que está manifesto, e nos distanciar de nós mesmos em um movimento de desintegração.
A manifestação analíticadaquilo que nos compete, é apenas uma parcela de nosso funcionamento, que pelo encontro analíticodestacou sua característica, que por sua vez não poderia ser classificada como a totalidade do eu.
Aqui fica visível que a qualidade da imagem que o psicoterapeuta reflete do seu paciente equivale muito mais à qualquer atribuição de desordem psíquica.
É necessário que aqualidadeintegradorada imagem seja mantida e transposta ao paciente,para que ele se identifique à suas própria natureza, e assim, com o ambiente adequadamente saudável possa elabora-las em sua própria condição.
Mais afinal, o que busca a arte? Aqui temos um questionamento necessário, e que de certa forma, nos falta hoje em dia até no consumo do que seria a própria arte.
Em minha compreensão, uma ação performática de qualquer caráter, por mais elementos artísticos que utilize não poderá garantir o status quo que sustenta a arte sem anteriormente promover consciência e estímulos à capacidade de reflexão acerca da realidade.
A fantasia e simbologia artística devem se manter saudáveis para a manutenção mental do indivíduo que consome o conteúdo artístico e também do coletivo, visando a reformulação de alguma incapacidade social ou fenomenológica que se encontra ali presente no cotidiano, e que pelo fator pós-moderno civilizatório, escapa cada dia mais dos nossos vértices de compreensão.
RIVERA, T. Cinema, Imagem e Psicanálise – Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editor, Ed. 2008.
BION, W. R. Atenção e Interpretação. Trad. Paulo Cesar Sandler – 2ª ed. Rio de Janeiro. Editora Imago, 2006.




Pedro Volpato
Psicoterapeuta
Contato: pedrovolpato.blog@gmail.com

17 98154-4941


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