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quinta-feira, 24 de maio de 2018

SOBRE LAÇOS AMOROSOS E NÓS ALIENADOS


Só um milagre faz da destruição uma forma de esperança.
Luiz Felipe Ponde

Amor e ódio são sentimentos responsáveis por promover a união de partes, a ligação das faltas que não se completam, mas unem-se para criar algo com a imensidão que essa junção acende [provoca] em cada um de nós.

São sentimentos que guardam em si uma função de sustentar duas ou mais pessoas em um laço amoroso ou amigável, e também revela em seu desdobramento uma variação que não se prende em saberes, por isso merece um olhar mais cuidadoso.

A rapidez do quotidiano e das relações instantâneas nos impossibilita muitas vezes de pensar melhor, repensar com mais cuidado nossas relações com aqueles que nos unimos para desenhar um percurso. Acreditamos muitas vezes que estamos ligados intimamente a alguém, e muitas vezes possuímos uma rasa capacidade de reconhecer e/ou questionar os efeitos dessa função de vínculo na qual estamos ligados.

Se a possibilidade de pensar melhor emperra, talvez também seja muito difícil perceber e atribuir às conseqüências que esses vínculos podem gerar em nossa vida psíquica.  É desastroso estar ligado profundamente a alguém que pouco conhecemos e, mais ainda, não conseguir nomear através da linguagem a dimensão e a qualidade de identificação desse vínculo tão importante em nossa vida.

Além desses laços direcionados a alguém, existem os grupos, coisas, objetos e também a forma como nos ligamos e relacionamos com o dinheiro. Este ensaio busca fazer-saber sobre a ligação que pode ser construída e cultivada entre o eu e o que se encontra para além dele.

Através desta experiência podemos chegar ao conceito que a qualidade de qualquer vínculo constituído com o outro dependerá da forma como somos capazes de nos relacionar com nós mesmos. Quando dois corpos se unem, inconsciente procuram encontrar nessa experiência de identificação algo que está na ordem do que lhe falta.

A capacidade afetiva de cada ser humano é o que poderá ampliar esse vínculo primário de identificação narcísica para algo que se encontra além, em que ambos possam se desenvolver subjetivamente sem se perder na expectativa do vínculo primário.

O laço amoroso é um processo de construção muito delicado, que implica a partir de uma demanda interna, muitas vezes árdua e pouco [quase nada] elaborada, para esboçar um percurso. Como bem instrui a psicanálise, o início de qualquer vínculo com o outro ocorrerá através de identificações entre as partes e algo muito além que não é possível de ser nomeado.

Há algo no outro [objeto de desejo] que parece preencher a parte que falta no sujeito, oferecendo um sentido outro ao seu vazio. O amor na relação amorosa obstrui muitas vezes quando o amante economiza para que não ocorra a escassez de seu amor para seu objeto amado.

O amor é uma contingência e não há uma ciência sobre ela. Pondé (2017) nos implica a refletir mais ainda sobre a possibilidade do amor, quando descreve:

Para lidar com a contingência, acumula-se alguma sabedoria, e onde há ciência, normalmente, falta sabedoria e sobra certeza. [...] o amor entra pela fresta da porta. Nunca é convidado, mas toma todo o ambiente quando é notado. Encanta pela sua força vital. Pelo desejo de vida que traz consigo.

Por isso, que quando o sujeito ama acredita estar à beira de encontrar a melhor versão de si mesmo. E essa experiência pode ser muito destrutiva para muitos outros, que não conseguem lidar com a dimensão desse amor que não pede licença para entrar.

Na relação amorosa, quando digo “eu te amo”, digo também “amo a mim mesmo através de ti”. Freud é muito preciso ao escrever: quando escolho amar o Outro, escolho amar quem representa a imagem ideal do meu Eu. Podemos expandir um pouco mais com a reflexão de Recalcati, quando diz que o amor pode ter várias faces, e uma delas é sem dúvida a face do embuste, da cegueira, da sugestão, da hipótese, do enamoramento narcísico.

Não é exagero dizer que nos aproximamos das pessoas e coisas muito mais pela expectativa do que imaginamos que elas sejam do que realmente são. O processo que conduz uma construção de laço amoroso verdadeiro necessita contar com um período de dedicação mínima que seja ao reconhecimento básico das partes, que está depois da experiência da identificação.

Segundo Martino, nessa fase do desenvolvimento do laço amoroso existe uma tênue/tenaz fragilidade naquilo que une as partes, que se encontram nesse momento severamente vulneráveis.  A construção e desenvolvimento do verdadeiro laço amoroso necessitam ser sempre um processo lento e que demanda extrema dedicação, por sua origem ser totalmente delicada.

A realidade última [vazio] promove o pensar melhor a respeito do que nos falta. Só somos capazes de pensar sob a experiência do vazio, implicados pelo movimento que falta nos convoca. Mas, como toda reflexão, provavelmente o sujeito pode ser impulsionado pela urgência de sua fragilidade emocional confundir o nó de uma relação perversa [alienação] com um laço amoroso.

Adoecido emocionalmente na autoestima, o sujeito encontra-se incapaz de duvidar, questionar ou de fantasiar. O ser humano fragilizado buscará estabelecer um modelo de vínculo no qual inviabilizará qualquer possibilidade de desconfortos ou tentará encontrar em nome de garantias um comodismo mórbido que obstruirá o contato com a fragilidade que dá cor a vida.

O nó da alienação está anos luz distante do objetivo [individual e partilhado] característico da expansão, desenvolvimento e transformação das partes de um laço amoroso. O sujeito fracassa no vínculo com o outro, por acreditar que seu nó alienado [perverso] seja um laço amoroso, o que impossibilita de fazer-saber sobre si mesmo pela incapacidade de sequer suspeitar de quem realmente seja.

Existe dois modelos de alienação em que podemos nos escorar e fazer morada. O primeiro é quando inseguros de nós mesmos nos unimos ao outro numa ligação parasitário-dependente, tornando-nos parte do outro. Nessa ligação perversa buscamos nos tornar parte daquele do qual estamos vinculados, para não nos responsabilizarmos por qualquer eventualidade do atrito saudável [mesmo que de forma frustrante], que um laço amoroso pode oferecer.

Em seu avesso há um modelo de falsa alienação, que se baseia no domínio-controlador, impondo que o outro seja parte de nós mesmos e nada mais que isso. Para Martino (2013), o sujeito incapaz de desenvolver certas funções, utiliza-se do outro para isso, perdendo o direito de ser ele mesmo, porque parte de si encontra-se sendo desempenhado por outrem.

A vinculação através do nó alienado faz com que o ser humano assuma uma posição de própria negação, que o leva a tornar-se cada dia mais carente de si mesmo, censurando o eu para que o outro possa existir. Na aliança perversa ou nó alienado, o funcionamento mental enfraquece sua capacidade de pensar e repensa melhor sobre si mesmo, o que intensifica ainda mais a própria alienação, atando-se mais ainda a dependência em favor do estado de desesperança.

Ligações como essas cultivam um fruto deficiente de nutrientes e extremamente vulnerável, por levar o peso das marcas amargas em sua raiz. E o que nasce dessa relação alienada-perversa, totalmente ausente de cuidado e amor, poderá viver numa espiral de repetição constante nas próximas gerações, contando apenas com a sorte de encontrar pelo caminho um amor que possa desconstruir essa linhagem perversa.

O impossível pode parecer uma linguagem que nos inibe de pensar além de sua fronteira, mas existe a esperança de transformação. No entanto, para que essa transformação ocorra é necessário que possamos ser capazes minimamente de suportar a devastação que o processo de desconstrução irá implicar em nesse momento da vida.

Esse percurso só é possível através da experiência de um amor que entra sem ser convidado ou da busca pela análise, na tentativa de falar sobre o que atormenta a alma e o corpo e, assim, fazer-saber sobre o que há por trás do sintoma, para poder ingressar na experiência de elaborações promovida pelo movimento analítico e então poder saber-fazer melhor com o que trava e inviabiliza a ação da existência no próprio percurso de vida.



Maicon José de Jesus Vijarva
Psicoterapeuta de Orientação Psicanalítica
Telefone: 017 98151-6943
E-mail: maiconvijarva@gmail.com
Snapchat I Instagram @acuradefreud
www.acuradefreud.com.br

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

A VIDA É SEMPRE UMA APOSTA

Apostar é um risco, uma ideia que percorre o corpo e que escorre pelos dedos das mãos sem sequer dar tempo de preencher a falta que deixa em nosso corpo. Por não existir garantias, o sujeito fica a benefício da esperança [do verbo esperançar], que significa sustentar o desejo produzindo o movimento de si mesmo para tornar o desejo possível de realização. 
Mas para ganhar é preciso que o sujeito seja [ousado e valente], ousado para continuar a desejar e valente para aprender a perder e ser o mínimo possível criativo em presença do vazio que o sentimento de perda promove. Aprender a perder só pode ser possível pelo viés da experiência, que quando nos atravessa faz tornar possível compreender e significar o que representa esse percurso a nós sujeitos do inconsciente.
Infelizmente [ou de maneira feliz], o sujeito tem de haver com o que lhe causa: mesmo que “escolha” viver pela ilusão. O método que os livros de “autoajuda” se propõem, só pode ajudar o próprio escritor que oferece o método, que traz o ganho das cifras em sua conta bancária. Há teóricos que “ensinam” o [treinamento da mente] para condicionar o sujeito, de maneira alienada [politicamente correta], a se encaixar numa sociedade que está doente dos nervos. 
O sujeito insiste em querer criar um método que possa domar a mente, que é uma tarefa que beira o abismo de tão impossível, entre mente e corpo existe o inconsciente que conduz de maneira selvagem o sujeito e que jamais pode ser domado. Podemos aprender a sermos gentis e amáveis para fazer as pazes com ele e assim viver o mais próximo do que “chamamos” de harmonia.  
Métodos de treinamento e condicionamento da mente pode até perdurar por algum período, mas devo alertar que o sujeito sedento por ser desejado é incapaz de sustenta o desejo do outro por muito tempo. O inconsciente é indomável e cobra um alto preço aquém o desafia. 
Sustentar o desejo de transformação [independente de sua causa] deve surgir do próprio sujeito do inconsciente. Por isso é pontual a importância de sustentar vínculos que sejam saudáveis ao aparelho psíquico, uma vez que, basta à existência do inconsciente do sujeito que se defende do seu desejo, gerando um movimento que vai sempre contra e não a favor da realização deste desejo.
Se conselho fosse bom, vendia-se. Por assim dizer, faço sugestivo que corra o risco, aposte em sua análise pessoal. Aposte na sua vida, o preço mais alto a ser pago é aprender a perder, se responsabilizar-se por seu percurso. Um grande e duro osso a se roer.
Se desejar fazer terapia, faça um contato telefônico.
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Maicon Vijarva I Psicoterapeuta de Orientação Psicanalítica.
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sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Sobre o Vencer e o Medo

Ensinam desde cedo que é preciso vencer na vida, que não se deve ter medo do caminho a seguir. Mas torna-se árdua essa tarefa, quando não se nasce num berço suficientemente bom, com as condições necessárias para correr riscos sem medo de voltar para o porto seguro.
Para que se possa vencer adequadamente, sem muita dificuldade, é preciso sim que o sujeito tenha o mínimo de ambiente suficientemente bom – para que seja possível sustentar a descoberta de si mesmo enquanto evoluí fisicamente e psiquicamente.
Modelos de superação, só servem para saber o quanto um ser humano pode chegar. Não que tais modelos devam ser seguidos. Na travessia de um lado ao outro da ponte, o que importa não é chegar ao objetivo, mas o gozo que se sente em ser enquanto atravessa a passagem até a chegada do que se almeja.
A cobrança do ambiente familiar, manipulado pela sociedade, destrói a habilidade da criança que está se desenvolvendo e nutre apenas o desespero por ser aceita por aquilo que não é e ofusca e reprime o potencial que existe em cada sujeito.
A criança que está em desenvolvimento por querer ser amada fica ainda mais vulnerável, acaba por se transformar no que os pais desejam, tornando-se adultos frágeis e melancólicos, sem prazer em sua existência.
Vencer e o medo sempre caminharam juntos, o medo é medidor para o sujeito em suas escolhas. Sentir medo é normal, sendo esse sentimento colaborador para o desenvolvimento do ser do indivíduo. Quando o sujeito é impedido de sentir medo, a capacidade de questionamento é deixada de lado, sendo levado pela vida a caminhos que não faz sentido a sua existência, impedindo o desenvolvimento do ser e suas ramificações.
Ser forte e vencedor, não significa que se é bem sucedido. O sujeito bem sucedido é aquele que pode sentir e a partir do seu sentir, pode pensar e questionar se o caminho de suas experiências que está seguindo é enriquecedor a sua vida.
Portanto, o ambiente familiar necessita ser suficientemente bom, para que a criança possa experimentar, testar e escolher o que fazer com o que surgem em seu dia a dia. A criança não deve ser forçada a fazer algo que não quer. O máximo que a figura familiar pode fazer é expor ideias, provocações filosóficas com o brincar da criança, estimular a partir do mundo dela – criança.
Wilfred R.Bion (1897 - 1979)

Wilfred R.Bion (1979) faz a reflexão de que o analista precisa ser em analise sem desejo e sem memória com o seu analisando. Faço aqui, a releitura e penso que os pais precisam ser com as crianças sem desejo e sem memória, para que as crianças possam ser por elas mesmas, descobrindo a partir dos modelos dos pais.
São os modelos dos pais, que serão alicerce para que o sujeito possa lidar com suas frustrações, medos e conquistas, e então ir se tornando um vencedor.

Bion. W. 1858/1979 COGITAÇÕEs. Ed. Imago. RJ, 2000. 1979 
________UMA MEMÓRIA DO FUTURO III. A aurora do esquecimento. Imago, RJ, 1996.







Maicon José de Jesus Vijarva
Escritor e Psicoterapeuta
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segunda-feira, 8 de agosto de 2016

MANEJO DO CIÚME: INVEJA E GRATIDÃO

O ciúme é um importante sentimento para o indivíduo em sua tenra infância, e tem uma atribuição respeitável para psicanálise, nos primórdios do desenvolvimento do sujeito. O que nos revela que sua configuração e efeitos no sujeito dependem da estrutura que o sustenta. O ciúme tem a característica de ser um estado emocional por despertar a percepção de uma possível ameaça a um vínculo ou posição de valor, que produz comportamento que se dispõe a liquidar com essa ameaça.
A partir desta perspectiva, percebemos que dentre as emoções humanas, o ciúme é um sentimento comum e deveras importante no desenvolvimento do indivíduo e entre os tipos de ciúme, o patológico é um sentimento que tem despertado uma visibilidade de grande proporção e que mereça uma maior atenção em seu manejo na contemporaneidade.
A motivação que gera o comportamento ciumento nasce das relações de junções tríade:  pensamentos, emoções e ações, movido por um objeto ameaçador ou a particularidade do vínculo com esse objeto desejado e invejado. O indivíduo enciumado age no intuito de preservar a si mesmo, a partir da castração do objeto desejado e invejado em que está veiculado. Pode-se dizer que o sujeito-ciumento-invejoso não podendo se tornar o objeto desejado, tende a destruí-lo parcialmente, para que esse objeto-desejado não seja capaz de se sustentar sem sua presença. 
Como podemos perceber, o ciúme se configura de variadas formas. Por ser uma manifestação afetiva muito comum, traz consigo uma dificuldade na compreensão de sua configuração entre ciúme clássico e patológico.
Para melhor esclarecimento, a diferença entre o ciúme clássico e o patológico é simples. O primeiro se refere a busca do sujeito em preservar os vínculos, já no segundo, se refere a busca do sujeito em satisfazer a si mesmo, na tentativa de aniquilar o desejo do outro: apenas o indivíduo enciumado que pode ser desejado e ter o seu desejo realizado. É desta forma, que cria em sua mente, um enredo para justificar externamente as suas frustrações e preocupações com a possível perda do objeto desejado.
Entende-se o ciúme, no senso comum, como uma disposição de domínio, emaranhado com o outro, no outro. Mas, de acordo com nossas reflexões de ciúme, podemos notar que essa classificação se encaixa melhor na posição de ciúme patológico. Devido a vontade de possuir, a ausência de confiança, identificação com o melancólico. Essas características dificultam a relação conjugal ou relação com outras pessoas da sociedade.
(1927 - 2012)
É interessante citar aqui, o escritor e psicanalista contemporâneo André Green (1927 - 2012), que descreve em 1988 essa figura materna como ausente e propulsora das identificações do sujeito com o melancólico, com a dificuldade de elaboração de frustrações, na problemática em se relacionar com o outro ou de percebê-lo como sujeito subjetivo, imponderado de um outro universo além do sujeito de ciúme patológico.     
O universo do indivíduo ciumento não consegue ser capaz de distinguir imaginação, fantasia e realidade. Tudo se mistura, sem espaço para percepção consciente. No entanto, quando ocorre essa percepção consciente, o ciumento de grau patológico nega e se retraí, na tentativa de buscar formas para se reestruturar internamente. O que o ciumento patológico procura é o controle total dos sentimentos, da atenção e do comportamento do outro.
No ponto de vista de Lacan (1988) o desejo do homem encontra seu sentido no desejo do outro, não tanto porque o outro detenha as chaves do objeto desejado, mas porque seu primeiro objeto (do desejo do homem) é ser reconhecido pelo outro. Se o ciumento patológico não conseguir ser reconhecido por ser o que é, o fará de forma forçada, na tentativa de se impor como sujeito a ser desejado por aquele em que ele projetou seu desejo.
Melanie Klein 
(1882 — 1960)
Para Melanie Klein (1957), define a inveja e a distingue da voracidade e ciúme através da ação dos diversos mecanismos de defesa e das relações de objeto. Na gratidão a autora descreve ser um sentimento impulsionador do desejo de retribuir a satisfação (o seio materno, fonte de prazer) conseguida e leva à separação, permitindo também as sublimações.  
Se entendemos que o ciúmes clássico é uma forma de sentir ameaçado por investidas externas, e que essa ameaça impulsiona o sujeito ciumento a nutrir o vínculo na intenção de preservar. Na inveja excessiva intrínseca no sujeito ciumento patológico, leva, habitualmente, à dissociação das partes consideradas más, com as consequentes divisões que sofre o ego, podendo causar mesmo verdadeira fragmentação. No inverso, a integração inesperada dos aspectos invejosos desconexos pode ter como consequência a manifestação de crises psicóticas, que são respeitáveis no discurso do tratamento psicanalítico.
De fato, dentro da perspectiva psicanalítica, é difícil vencer certos pontos cruciais dos laços vivenciados, representado pelo aproveitamento e melhoras reais obtidas pelo sujeito dentro do vínculo, pois este, devido à excessiva inveja que sente do par amoroso, se desfaz logo do alívio e das melhoras alcançadas. 
Em Melanie Klein (1957), com a regressão e a piora que a seguir se instala, não só diminui sua inveja como também expia a culpa correspondente. Na dupla amorosa, o sujeito ciumento-invejoso sentirá extrema dificuldade em sentir satisfeito com sua posição positiva dentro da relação. De sorte, para evitar a inveja do par amoroso, os progressos realizados, para serem bem aceitos, devem ser lentos e graduais. É aqui que a análise entra, na tentativa de levar o sujeito ciumento-invejoso a busca de reconhecer a sua condição de invejoso, para futuramente, de forma gradual, reconhecer a gratidão que venha a se instalar. Levando em conta, ser uma tarefa muito difícil aceitar o alívio, felicidade e bem-estar porque está implícita a necessidade de poder expressar gratidão.
A gratidão, inveja e ciúme são sentimentos difíceis de elaboração e, ainda mais, de serem identificados e compreendidos em nós mesmos, de maneira especial quando considerados em sua grandeza, significação e profundez exatas.
Para Melanie Klein (1957), mesmo a gratidão – que é baseada em sentimentos amorosos – é com facilidade confundida com o que se nomeia de “falsa gratidão”. Esta, ao invés de estar ligada à confiança e aceitação do bom objeto, bem como do reconhecimento do que dele se recebeu e à necessidade de retribuir a gratificação obtida, é primariamente um procedimento que tenta manter controlado o objeto, considerado perseguidor, através do seu aplacamento por meio de conduta aparentemente adequada e oferendas.
De tal modo, talvez o fato que acabara de ser mencionado pode se fundar em um exemplo das robustas resistências em focalizar este tema emocionalmente tão envolvente para todos, tanto para o sujeito ciumento como para o par amoroso.
Podemos utiliza de uma fábula para elucidar o funcionamento da psique daquele que vivencia veementemente o sentimento de inveja, aqui no caso o ciumento patológico.  A fábula narra a história de certa ocasião, em que um homem extremamente invejoso de seu vizinho, recebe a visita de uma fada, que lhe dá a possibilidade de realizar um único desejo, então disse a fada ao homem: peça o que desejar, desde que seu vizinho receba em dobro. O invejoso em seguida respondeu, quero que lhe arranque um olho.
A moral da fábula é nítida, o prazer do ser humano em ver o seu próximo se prejudicar prevalece sobre qualquer desejo de benefício pessoal, embora seja uma satisfação pessoal de ver o outro sofrer. Não é preciso ir muito longe, na perspectiva do pensar, para chegar à conclusão da psicanalista Klein (1974) de que a inveja é uma característica poderosíssima na erosão das raízes do sentimento de amor e gratidão, de modo a afetar a relação mais ancestral de todas, a relação com a figura materna. A veridicidade radical da manifestação da inveja é o seu impulso destrutivo, por levar o sujeito a incidir e destruir o objeto bom, cujo a introjeção é o alicerce do funcionamento psíquico. Esse afeto, por nem sempre ser consciente, inibe a assimilação de experiências boas e, deste modo, a possibilidade de integração com a psique.
De acordo com a autora, a inveja não é produto da decepção ou frustração, ela é parte da vida psíquica do sujeito desde a tenra infância independente das atitudes da figura materna e do seu ambiente oferecido. Pelo adverso, a inveja emana do próprio sujeito, sendo sentimento endógeno. Em contrapartida, para Winnicott (1971), a inveja é fator secundário, proveniente de uma falha na elaboração do ambiente, sendo a relação mãe-bebê fator primordial para acolher o sentimento de inveja da criança, contribuindo para uma boa resiliência do sentimento de inveja.
 Para Martino (2015), o medo de perder é filho do desejo de posse. O que nos revela que o sujeito enciumado somente aprenderá a reconhecer a realidade depois de experimentar a sensação de que essa realidade é uma extensão de seu desejo. Freud (1821) traz uma realidade interessante: “se nós mesmos não podemos ser os favoritos, pelo menos ninguém mais o será”, “só ama o outro quem ama a si mesmo; só ama a si mesmo quem foi amado pelo outro” (Martino, 2015). Em outras palavras, o sujeito enciumado inseguro de si mesmo troca aquela coisa que mais tem habilidade por aquilo de que não é capaz.
Tal reflexão faz alusão ao pensamento de Bion (1967) em que traz a proposta de realidade última, que depende funcionalmente da capacidade de tolerar frustrações. Para o intolerante (o ciumento), é melhor não ver, não saber. Essa tolerância só é obtida em dois momentos, no primário, com a figura materna e no secundário, com a figura analista. A primeira tende a ser menos árdua que a segunda, por tratar-se de uma demanda interna maior, para elaboração do sujeito.

Maicon José de Jesus Vijarva
Escritor e Psicoterapeuta
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