terça-feira, 18 de abril de 2017

A IMPOSSIBILIDADE DE INTEGRAÇÃO PELO IDEAL DE REPRESENTAVIDADE

            
Nos dias de hoje, a questão de sermos representados, seja no campo político ou em qualquer área de inserção e atuação profissional vem sendo confundida e proposta como ferramenta à promoção de igualdade e esperança. A busca por tal realização tem levantado inúmeras questões e debates acerca desta possibilidade que, pelo ideal de sua transformação seriam diminuídas ou até diluídas em nossas complexas estruturas e adversidades, aliadas à nossa atual modernidade e a subjetividade de nossa existência secular como humanos.
            
   Abordando este aspecto de forma psicanalítica, temos no início da vida psíquica como constituição a identificação. Já nas fases primitivas do nosso desenvolvimento e de forma inerente, espera-se por esta ocorrência. Assim, no decorrer da vida torna-se um ato de coragem e responsabilidade pessoal exercer-se a busca e união por aquilo que identificamos como um novo processo aos cursos de nossa trajetória.
                
A identificação surge comumente ao seio familiar, especificamente ao movimento de nossos primeiros contatos e vínculos parentais, e então essa mesma identificação passa por variáveis transformações pelas influências de nossas experiências que, posteriormente concebem nossos ideais, imaginações, pensamentos e personalidade.

“A identificação constitui a forma original de laço emocional com um objeto; segundo, de maneira regressiva, ela se torna sucedâneo para uma vinculação de objeto libidinal, por assim dizer, por meio de introjeção do objeto no ego; e, terceiro, pode surgir com qualquer nova percepção de uma qualidade comum partilhada com alguma outra pessoa que não é objeto de instinto sexual. Quanto mais importante essa qualidade comum é, mais bem-sucedida pode tornar-se essa identificação parcial, podendo representar assim o início de um novo laço.” (FREUD, 2006 Vol. XVIII).

            Desta forma, relacionando o conceito de representatividade ao contexto oferecido pela identificação, mantemos nossas perspectivas de maneira única em direção ao mundo externo, contabilizando também suas estruturas e configurações, nos trazendo a forte convicção de que estamos plenamente conectados ao outro pelo acordo dos mesmos ideais unidos ao fator de integração dessa identificação em comum.
            
Então, pelos desdobramentos das variáveis e perspectivas advindas além das próprias identificações, como ocorre nas experiências, vamos aderindo adversamente convicções de natureza inconcebíveis ao outro, pela simples característica de nossa ótica relativa, que pré-determina e contrapõe nossa compreensão independentemente da identificação mútua que mantemos entre os objetos.
            
Assim, fica distante dentro de nossas próprias capacidades individuais estabelecer-se por completo apesar mesmo da forte identificação que nos une, as nossas ações não se realizam fora do nosso próprio campo de individualidade enquanto personalidade constituinte por natureza inconsciente, e neste sentido, podemos ao nosso máximo propor modelos de utilização, dos quais partem de nossas ligações e integrações que mantemos com a realidade, pois representar interinamente o outro, e por totalidade os ideais dos membros de todo um grupo ou qualquer outra externalidade diversa não se encontra acessível pelo nosso complexo contingente psíquico e pessoal a qual pertencemos, por mais completa e dedicada que possa ser nossa ação de busca por este ideal de transformação.
            
Em uma busca obsessiva por este representar, seja este ou aquele desejo, podemo-nos encontrar em um movimento similar de desintegração de individualidade momentânea, que pode ser prejudicial se experimentada intensamente e de maneira desrespeitosa ou ilimitada, corrompendo assim nosso próprio e único modelo de contribuição à realidade que podemos ter como finalidade.
            
Ainda assim podemos presumir que, nessa busca constante pelo ideal de representação, por mais conscientes do contexto ao qual estamos desempenhando, nossa intenção poderá atingir somente onde nosso senso de autopreservação natural ocorrer, nos alocando novamente ao pertencimento de nossa própria e única integridade, a nossa constituição fenomenológica pessoal.
           
Sobre esta dificuldade acerca das integrações e diferenças contextuais, deixo em destaque um trecho freudiano, do qual se refere às exigências de buscas por resultados estimados e satisfatórios à partir das premeditações e idealizações mantidas e construídas socialmente;  

"Detenhamo-nos aqui por um momento para garantir ao analista que ele conta com nossa sincera simpatia nas exigências muito rigorosas a que tem de atender no desempenho de suas atividades. Quase parece como se a análise fosse a terceira daquelas profissões ‘impossíveis’ quanto às quais de antemão se pode estar seguro de chegar a resultados insatisfatórios. As duas outras, conhecidas há muito mais tempo, são a educação e o governo." (FREUD, 2006 Vol. XXIII).

FREUD, S. 1923-1925 Além do Princípio do Prazer, Psicologia de Grupo e Outros Trabalhos. Vol. XVIII. Obras Psicológicas Completas, Edição Standard Brasileira – Rio de Janeiro. Editora Imago, 2006.

FREUD, S. 1937 Análise Terminável e Interminável. Vol. XXIII. Obras Psicológicas Completas, Edição Standard Brasileira – Rio de Janeiro. Editora Imago, 2006.



Pedro Volpato
Psicoterapeuta
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pedrovolpato.blog@gmail.com
17 98154-4941

sábado, 1 de abril de 2017

A PARCIALIDADE DA INDEPENDÊNCIA

No momento em que acreditamos sermos absolutamente independentes de quaisquer formas de ligações entre as atividades das quais desempenhamos ou julgamos que mantínhamos em certa predominância, abre-se uma possibilidade de reconhecimento sobre este fenômeno em questão. 
Em sociedade somos compreendidos por variados atributos e composições das quais pertencemos, porém, independentemente destas estruturas e configurações se caracterizam os contextos sobre as dependências humanas em formas generalizadas, por variáveis consequências advindas de nossas necessidades já destacadas por Freud em nosso campo psíquico por constituição, advindas por pulsões primitivas oriundas de nosso organismo constituinte.
“Se o trabalho consiste em uma atividade psicológica como o pensar, é perfeitamente legítimo, acreditava Freud, chamar essa forma de energia de energia psíquica. Segundo a doutrina de conservação da energia, ela pode ser transformada de um estado para outro, mas nunca se perde no sistema cósmico total. Disso decorre que a energia psíquica pode ser transformada em energia fisiológica e vice-versa.” (HALL, 2000).
Em concordância com esta perspectiva freudiana podemos alertar que todos nós seres humanos, somos absolutamente dependentes, dependentes da energia psíquica de si ou de externas estruturas para a mantenedora organização natural dos movimentos de vida, fora ou em enquanto membros de sociedades ou grupos.
Mesmo aquele que se intitula independente, poderá se mostrar assegurado de uma forma ou de outra, pelo auxílio e disposição que outrem movimenta em direção a si.

Assim como esta energia, que se mostra em constantes transformações, e antecede algo, neste contexto poderá surgir uma manobra e condizer uma imaginação, ou até um pensamento que posteriormente venha ser estruturado e levado a conclusão de criação de algo externo, como um objeto que poderá ser utilizado, e então manter ou contribuir para as necessidades de alguém.
A energia psíquica é um movimento que nos conduz em direção aos objetivos que inicialmente podem parecer pessoais, mais que, em certa escala de produtividade e por consequência atingiram pessoas, seja por auxílio no processo desta criatividade, ou pelo recebimento de quem consumirá essas produções em algum momento. 
Neste sentido, pela incapacidade de percepção deste contexto, digo as formas de dependência à qual todos nós humanos nos mantemo-nos vinculados, ainda que de formas impessoais, imperceptíveis ou indiretas, tendemos segmentar as partes, em um movimento de descaracterização ao todo a qual pertencemos, no sentido de entendimento, e por vezes coordenados por algo muito além de nossa própria percepção consciente, como um movimento natural de reação.

No momento em que sentimos responsáveis por aquilo que acreditamos e exercemos representações disso em direção ao mundo, vamos despertando a atenção da visão externa por estes vieses, em contribuição às novas experiências daqueles que futuramente estriam sujeitos, em um movimento real de total parcialidade.

HALL, C. Teorias da personalidade 4ª ed. Porto Alegre. Editora Artmed, 2000.



Pedro Volpato
Psicoterapeuta
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