sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Ser Meritocrata

Para o meritocrata, basta pensar, querer e agir que saímos da pobreza. Sendo assim, passam a culpa para o indivíduo (outro). E assim, o capitalismo meritocrata exime sua culpa. Ao buscar esses méritos, e principalmente os que acreditam ter conseguido, muitas vezes tiveram que renunciar a algo, tais como filhos, pais, amigos, e, porque não dizer, a si mesmo. As verdades contidas nas doutrinas da meritocracia estão de tal forma e sistematicamente disfarçadas que não podem ser reconhecidas pelo sujeito, a ponto de só perceber seus próprios méritos.

Friedrich Nietzsche
(1844 - 1900)
Tal reflexão faz alusão ao pensamento de Friedrich Nietzsche (1844 - 1900), em sua obra Além do Bem e do Mal (1886), em outras palavras, aquele que quer, acredita que querer e fazer se resumem numa única coisa. Para ele, o êxito e a execução do querer são efeitos do próprio querer e esta crença torna mais forte o sentimento de poder, que ele sente, e que o êxito traz como companheiro. O ‘livre arbítrio’: esta é a designação desse complexo estado de prazer do homem que quer, que manda, e que, ao mesmo tempo, se confunde com o que executa, gozando assim o prazer de superar obstáculos com a ideia de que é sua própria vontade que triunfa sobre as resistências. E na busca de querer mais méritos, pais deixam seus filhos nas creches e seus pais nos asilos. E esses, que tanto lutaram para ter seus méritos reconhecidos, não conseguem reconhecer, a não ser através do “ter”. E através do disfarce do “ter” tentam eximir suas culpas. Nas redes sociais postam suas fotos, se expõem, para mostrar o quanto são felizes, como é só pensar, ter força de vontade e agir que conseguimos tudo que queremos, fazendo disso um cenário, um mecanismo de defesa, para que os outros não percebam que tem outra parte em suas vidas que eles não expõem, que não querem que os outros saibam, que é uma lástima. Percorrem incessantemente o mesmo círculo, com um sentimento de superioridade. E nada podem oferecer ao outro ou a si mesmo, a não ser o medo de não obter o que desejam ou perderem o que possuem.
Jiddy Krishnamurti (1895 - 1986)
Para Jiddy Krishnamurti (1895 - 1986), em seu livro Liberte-se do Passado de (1969), “queremos estar sempre sentados no palanque. Interiormente, somos remoinhos de aflição e de malevolência, e, por conseguinte, ser olhado exteriormente como uma grande figura proporciona imensa satisfação. Esse anseio de posição, de prestígio, de poder, de ser reconhecido pela sociedade como pessoa de destaque, representa uma vontade de dominar os outros, e essa vontade de domínio é uma forma de agressão”. Considero que levar em conta apenas esses aspectos é insuficiente. Mesmo porque, viver sem mérito pode ser triste, mas, mais doloroso me parece a ideia de podemos caminhar em busca, sozinhos.




Carlos C.P. Paulino
Psicoterapeuta
CRP: 06/129514
Contato: (17)  988228451 - 
UniCuidar- Clinica de Psicologia - 
Rua Dom Pedro I, Nº 2613- 
Sala 02 – São José do Rio Preto - SP

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Sobre o Vencer e o Medo

Ensinam desde cedo que é preciso vencer na vida, que não se deve ter medo do caminho a seguir. Mas torna-se árdua essa tarefa, quando não se nasce num berço suficientemente bom, com as condições necessárias para correr riscos sem medo de voltar para o porto seguro.
Para que se possa vencer adequadamente, sem muita dificuldade, é preciso sim que o sujeito tenha o mínimo de ambiente suficientemente bom – para que seja possível sustentar a descoberta de si mesmo enquanto evoluí fisicamente e psiquicamente.
Modelos de superação, só servem para saber o quanto um ser humano pode chegar. Não que tais modelos devam ser seguidos. Na travessia de um lado ao outro da ponte, o que importa não é chegar ao objetivo, mas o gozo que se sente em ser enquanto atravessa a passagem até a chegada do que se almeja.
A cobrança do ambiente familiar, manipulado pela sociedade, destrói a habilidade da criança que está se desenvolvendo e nutre apenas o desespero por ser aceita por aquilo que não é e ofusca e reprime o potencial que existe em cada sujeito.
A criança que está em desenvolvimento por querer ser amada fica ainda mais vulnerável, acaba por se transformar no que os pais desejam, tornando-se adultos frágeis e melancólicos, sem prazer em sua existência.
Vencer e o medo sempre caminharam juntos, o medo é medidor para o sujeito em suas escolhas. Sentir medo é normal, sendo esse sentimento colaborador para o desenvolvimento do ser do indivíduo. Quando o sujeito é impedido de sentir medo, a capacidade de questionamento é deixada de lado, sendo levado pela vida a caminhos que não faz sentido a sua existência, impedindo o desenvolvimento do ser e suas ramificações.
Ser forte e vencedor, não significa que se é bem sucedido. O sujeito bem sucedido é aquele que pode sentir e a partir do seu sentir, pode pensar e questionar se o caminho de suas experiências que está seguindo é enriquecedor a sua vida.
Portanto, o ambiente familiar necessita ser suficientemente bom, para que a criança possa experimentar, testar e escolher o que fazer com o que surgem em seu dia a dia. A criança não deve ser forçada a fazer algo que não quer. O máximo que a figura familiar pode fazer é expor ideias, provocações filosóficas com o brincar da criança, estimular a partir do mundo dela – criança.
Wilfred R.Bion (1897 - 1979)

Wilfred R.Bion (1979) faz a reflexão de que o analista precisa ser em analise sem desejo e sem memória com o seu analisando. Faço aqui, a releitura e penso que os pais precisam ser com as crianças sem desejo e sem memória, para que as crianças possam ser por elas mesmas, descobrindo a partir dos modelos dos pais.
São os modelos dos pais, que serão alicerce para que o sujeito possa lidar com suas frustrações, medos e conquistas, e então ir se tornando um vencedor.

Bion. W. 1858/1979 COGITAÇÕEs. Ed. Imago. RJ, 2000. 1979 
________UMA MEMÓRIA DO FUTURO III. A aurora do esquecimento. Imago, RJ, 1996.







Maicon José de Jesus Vijarva
Escritor e Psicoterapeuta
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segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

sábado, 22 de outubro de 2016

Sobre a Mãe e o Filho

Baseando-se em experiências passadas e expectativas futuras, a mãe, quando presa em seu narcisismo, faz de tudo para reter o filho junto de si. E nessa perspectiva de enxergar o mundo com seus próprios olhos, impede o filho de cavalgar. Assim, a mãe se sente segura, e torna o filho leal a ela. Essa condição neurótica da mãe (narcísica) de querer a lealdade do filho o impede de desprender-se dela. Do mesmo modo, sua liberdade de ideias, seus impulsos imaturos e sua independência ficam comprometidos. Para
Donald Woods Winnicott (1896 —1971) pediatra e psicanalista inglês, em seu livro O BRINCAR E A REALIDADE, de 1975, “a mudança do estado primário para um estado em que a percepção objetiva é possível, não é apenas questão de um processo de crescimento inerente ou herdado; necessita, além disso, de uma mínima provisão ambiental e relaciona-se a todo imenso tema do indivíduo a deslocar-se da dependência no sentido da independência”. A idealização do “filhinho da mamãe” no passado faz com que o filho continue amarrado à “saia da mãe” no futuro.
Dessa forma, o filho tende a imitar a mãe, tendo os mesmos interesses que ela. Interesses esses que, embora muitas vezes inconscientes, vêm em forma de ação, atos praticados por ela, passando para o filho seus sonhos que tanto quis e teve que renunciar. Melanie Klein (1882 —1960) em AMOR, ÓDIO E REPARAÇÃO (1967) escreve: “se, em resultado de um conflito não-solucionado do passado, a mãe sente-se por demais culpada em relação ao seu próprio filho, ela poderá necessitar tão intensamente o seu amor a ponto de utilizar-se de vários artifícios para prendê-lo fortemente a si e torná-lo dependente dela; ou ainda, haverá de dedicar-se exageradamente à criança, fazendo dela o centro de toda a sua vida".
Melanie Klein
(1882 —1960)
A mãe incorpora o filho como parte de si. Sendo assim, o filho fica preso à mãe, e sem a falta da mãe não consegue reconhecer-se a si mesmo, e sem reconhecer-se a si mesmo não consegue reconhecer o outro, a não ser a própria mãe. Assim, podemos usar a expressão: “filhinho da mamãe”.




Carlos César Pedretti Paulino
Psicoterapeuta
Fone: 17-988228451

carloscpaulino@hotmail.com

sábado, 17 de setembro de 2016

Entre a Inveja e a Gratidão

Nos dividimos entre a inveja e a gratidão. A inveja é destrutiva e inerente à mente, um mecanismo de defesa (Projeção) que nos leva a desejar o que não temos. Segundo Martino (2011), “eu só posso ser grato se um dia eu invejei, se eu nunca invejei, eu não posso ser grato de nada”.
Quando um bebê sente inveja do seio porque a mãe não é suficientemente boa, não o satisfaz, ele suga o seio com o desejo de destruí-lo. Assim faz o adulto, sugando o seio alheio, de uma maneira que possa o deixar satisfeito, e quando isso não acontece, vem um sentimento raivoso de inveja, ou posso tê-lo ou então desejo estragá-lo.
Muitas vezes, ter não é o suficiente, é preciso mostrar o que se tem, o que foi adquirido. O invejoso não é capaz de olhar para aquilo que conquistou. Por alguma razão, precisa da aprovação do outro. Nesse caso, a inveja se caracteriza pela ingratidão de si próprio, ou seja: a ingratidão passa a ser filha da inveja.
Para Melanie Klein, em seu livro Inveja e Gratidão de 1957, “a inveja é sempre uma paixão vil, carregando em seu caminho as piores paixões”. 
Pois bem, se eu só posso ser grato se um dia eu invejei, assim como afirma Martino em Para Além da Clínica, isso me propõe pensar que eu só posso saber o que é uma coisa passando por ela, portanto, me parece indispensável passarmos pelas piores paixões para que possamos ser gratos. 
Assim, como podemos observar, a gratidão advém de uma percepção do sofrimento psíquico de si mesmo. E me parece conveniente pensarmos que, a partir desse momento, restauramos a outra parte do eu, a parte que nos capacita o reconhecimento do outro. E assim, podemos olhar para o outro com empatia. E por consequência, não há mais desejo de destruição do outro, não há mais medo, e uma mente sem medo é capaz de infinita gratidão.
Krishnamurti (1969) lembra que: “Enquanto não nos livrarmos do medo, ainda que galguemos o mais alto cume, ainda que inventemos toda espécie de deuses, ficaremos sempre na escuridão”.


MARTINO, Renato Dias. Para Além da Clínica,  1. ed. São José do Rio Preto, SP : Inteligencia 3 Editora, 2011.
KLEIN. M. Inveja e Gratidão. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1957.
KRISHNAMURT, J. Liberte-se do Passado. Trad. Hugo Veloso. São Paulo: Cultrix, 1969.




Carlos César Pedretti Paulino
Psicoterapeuta
Fone: 17-988228451
carloscpaulino@hotmail.com