sábado, 17 de setembro de 2016

Entre a Inveja e a Gratidão

Nos dividimos entre a inveja e a gratidão. A inveja é destrutiva e inerente à mente, um mecanismo de defesa (Projeção) que nos leva a desejar o que não temos. Segundo Martino (2011), “eu só posso ser grato se um dia eu invejei, se eu nunca invejei, eu não posso ser grato de nada”.
Quando um bebê sente inveja do seio porque a mãe não é suficientemente boa, não o satisfaz, ele suga o seio com o desejo de destruí-lo. Assim faz o adulto, sugando o seio alheio, de uma maneira que possa o deixar satisfeito, e quando isso não acontece, vem um sentimento raivoso de inveja, ou posso tê-lo ou então desejo estragá-lo.
Muitas vezes, ter não é o suficiente, é preciso mostrar o que se tem, o que foi adquirido. O invejoso não é capaz de olhar para aquilo que conquistou. Por alguma razão, precisa da aprovação do outro. Nesse caso, a inveja se caracteriza pela ingratidão de si próprio, ou seja: a ingratidão passa a ser filha da inveja.
Para Melanie Klein, em seu livro Inveja e Gratidão de 1957, “a inveja é sempre uma paixão vil, carregando em seu caminho as piores paixões”. 
Pois bem, se eu só posso ser grato se um dia eu invejei, assim como afirma Martino em Para Além da Clínica, isso me propõe pensar que eu só posso saber o que é uma coisa passando por ela, portanto, me parece indispensável passarmos pelas piores paixões para que possamos ser gratos. 
Assim, como podemos observar, a gratidão advém de uma percepção do sofrimento psíquico de si mesmo. E me parece conveniente pensarmos que, a partir desse momento, restauramos a outra parte do eu, a parte que nos capacita o reconhecimento do outro. E assim, podemos olhar para o outro com empatia. E por consequência, não há mais desejo de destruição do outro, não há mais medo, e uma mente sem medo é capaz de infinita gratidão.
Krishnamurti (1969) lembra que: “Enquanto não nos livrarmos do medo, ainda que galguemos o mais alto cume, ainda que inventemos toda espécie de deuses, ficaremos sempre na escuridão”.


MARTINO, Renato Dias. Para Além da Clínica,  1. ed. São José do Rio Preto, SP : Inteligencia 3 Editora, 2011.
KLEIN. M. Inveja e Gratidão. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1957.
KRISHNAMURT, J. Liberte-se do Passado. Trad. Hugo Veloso. São Paulo: Cultrix, 1969.




Carlos César Pedretti Paulino
Psicoterapeuta
Fone: 17-988228451
carloscpaulino@hotmail.com

sábado, 3 de setembro de 2016

I Jornada do GEPA

I Jornada do GEPA
Grupo de Estudo Psicanálise do Acolhimento
Da Capacidade de Vinculação no Mundo Atual
Dia 08 de outubro de 2016, sábado. A partir das 09:00, no Centro Cultural Vasco, Rua São João n° 1840
Boa Vista
Investimento R$ 30,00 antecipado - Inscrições pelo e-mail prof.renatodiasmartino@gmail.com, informações pelo fone 17-30113866


Conferencias:
OS RELACIONAMENTOS LÍQUIDOS E AS VIRTUALIDADES
Jessica Kemelly Marques - Psicoterapeuta
Uma reflexão sobre os novos arranjos de relacionamentos que por outrora tem se tornado cada vez mais líquido. O que faz com que isso aconteça? Estaríamos em uma nova era de relacionamentos? Essas são algumas questões que serão abordadas no decorrer da reflexão.
PSICANÁLISE E CONTEMPORANEIDADE: Desafios ao Cuidado Psicoterapêutico
Mical Cavalcante - Psicoterapeuta
Os desafios do cuidar na contemporaneidade. Das Vicissitudes importantes ocorrentes desde o nascimento da psicanálise,  que prosseguem afetando o sujeito em todas as eras, até as novas formas de enfrentá-las no presente momento. Com os impactos do imediatismo do mundo pós-moderno, a intolerância à frustração e ainda as transformações no conceito de subjetividade, como a psicanálise contribui com suas teorias e práticas para certa forma de manejo de tais inquietações.
A IMPORTÂNCIA DO OLHAR RECONHECEDOR: Da teoria a prática clínica
Paulo Henrique de Oliveira - Psicoterapeuta
Descrição: Pensar através da proposta teórica psicanalítica a constituição do sujeito sob a importância do olhar do outro, suas implicações; e os desafios da clínica psicanalítica contemporânea.
DESAMPARO E O AMOR SEQUESTRADO: O Complexo da Mãe Morta
 Maicon Vijarva - Psicoterapeuta
A separação saudável deve dar lugar à criação de uma mediação para paliar os efeitos traumáticos da ausência e elaborar a integração no interior do ego da criança. A ausência de afetividade produzirá um “complexo”, que remonta hipoteticamente o afastamento e falta de interesse materno, que conduzirá a criança a assumir medidas drásticas, como indiferença ante o mundo externo e identificação inconsciente com a mãe melancólica.
A PSICANÁLISE E O PENSAR: Dentro e fora do setting terapêutico.
Aline Fiamenghi Portera Do Carmo - Psicoterapeuta
O pensar gera desconforto e não é bem recebido no mundo da obrigação do saber, do fazer e da euforia. A contemporaneidade com suas ferramentas para lidar com o mundo externo deixando a desejar quanto ao interno.
No setting terapêutico é possível encontrar um ambiente acolhedor, proporcionando a sensação de amparo através da escuta cuidadosa e atenta do analista real que não embutirá pensamentos no analisando, mas deve sim questioná-los. Abre-se a oportunidade de amadurecimento mental para lidar com os obstáculos do dia-a-dia.
A DEPRESSÃO E O AMAR - Apresentação do livro A Depresão e o Amar
Thais Regina Pereira e Jéssica Tathyane Barbosa - Psicoterapeutas e Escritoras
O sujeito em processo depressivo está exposto a transformação e consequentemente a dor psíquica. Como lidar, e vivenciá-la, de maneira saudável? O vínculo afetivo vem para nos auxiliar nesta busca incessante. A vinculação afetiva capaz de ser continente e acolhedora pode auxiliar no enfrentamento da dor emocional, para transpor com menor sofrimento e melhor capacidade de se transformar e desenvolver-se.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

MANEJO DO CIÚME: INVEJA E GRATIDÃO

O ciúme é um importante sentimento para o indivíduo em sua tenra infância, e tem uma atribuição respeitável para psicanálise, nos primórdios do desenvolvimento do sujeito. O que nos revela que sua configuração e efeitos no sujeito dependem da estrutura que o sustenta. O ciúme tem a característica de ser um estado emocional por despertar a percepção de uma possível ameaça a um vínculo ou posição de valor, que produz comportamento que se dispõe a liquidar com essa ameaça.
A partir desta perspectiva, percebemos que dentre as emoções humanas, o ciúme é um sentimento comum e deveras importante no desenvolvimento do indivíduo e entre os tipos de ciúme, o patológico é um sentimento que tem despertado uma visibilidade de grande proporção e que mereça uma maior atenção em seu manejo na contemporaneidade.
A motivação que gera o comportamento ciumento nasce das relações de junções tríade:  pensamentos, emoções e ações, movido por um objeto ameaçador ou a particularidade do vínculo com esse objeto desejado e invejado. O indivíduo enciumado age no intuito de preservar a si mesmo, a partir da castração do objeto desejado e invejado em que está veiculado. Pode-se dizer que o sujeito-ciumento-invejoso não podendo se tornar o objeto desejado, tende a destruí-lo parcialmente, para que esse objeto-desejado não seja capaz de se sustentar sem sua presença. 
Como podemos perceber, o ciúme se configura de variadas formas. Por ser uma manifestação afetiva muito comum, traz consigo uma dificuldade na compreensão de sua configuração entre ciúme clássico e patológico.
Para melhor esclarecimento, a diferença entre o ciúme clássico e o patológico é simples. O primeiro se refere a busca do sujeito em preservar os vínculos, já no segundo, se refere a busca do sujeito em satisfazer a si mesmo, na tentativa de aniquilar o desejo do outro: apenas o indivíduo enciumado que pode ser desejado e ter o seu desejo realizado. É desta forma, que cria em sua mente, um enredo para justificar externamente as suas frustrações e preocupações com a possível perda do objeto desejado.
Entende-se o ciúme, no senso comum, como uma disposição de domínio, emaranhado com o outro, no outro. Mas, de acordo com nossas reflexões de ciúme, podemos notar que essa classificação se encaixa melhor na posição de ciúme patológico. Devido a vontade de possuir, a ausência de confiança, identificação com o melancólico. Essas características dificultam a relação conjugal ou relação com outras pessoas da sociedade.
(1927 - 2012)
É interessante citar aqui, o escritor e psicanalista contemporâneo André Green (1927 - 2012), que descreve em 1988 essa figura materna como ausente e propulsora das identificações do sujeito com o melancólico, com a dificuldade de elaboração de frustrações, na problemática em se relacionar com o outro ou de percebê-lo como sujeito subjetivo, imponderado de um outro universo além do sujeito de ciúme patológico.     
O universo do indivíduo ciumento não consegue ser capaz de distinguir imaginação, fantasia e realidade. Tudo se mistura, sem espaço para percepção consciente. No entanto, quando ocorre essa percepção consciente, o ciumento de grau patológico nega e se retraí, na tentativa de buscar formas para se reestruturar internamente. O que o ciumento patológico procura é o controle total dos sentimentos, da atenção e do comportamento do outro.
No ponto de vista de Lacan (1988) o desejo do homem encontra seu sentido no desejo do outro, não tanto porque o outro detenha as chaves do objeto desejado, mas porque seu primeiro objeto (do desejo do homem) é ser reconhecido pelo outro. Se o ciumento patológico não conseguir ser reconhecido por ser o que é, o fará de forma forçada, na tentativa de se impor como sujeito a ser desejado por aquele em que ele projetou seu desejo.
Melanie Klein 
(1882 — 1960)
Para Melanie Klein (1957), define a inveja e a distingue da voracidade e ciúme através da ação dos diversos mecanismos de defesa e das relações de objeto. Na gratidão a autora descreve ser um sentimento impulsionador do desejo de retribuir a satisfação (o seio materno, fonte de prazer) conseguida e leva à separação, permitindo também as sublimações.  
Se entendemos que o ciúmes clássico é uma forma de sentir ameaçado por investidas externas, e que essa ameaça impulsiona o sujeito ciumento a nutrir o vínculo na intenção de preservar. Na inveja excessiva intrínseca no sujeito ciumento patológico, leva, habitualmente, à dissociação das partes consideradas más, com as consequentes divisões que sofre o ego, podendo causar mesmo verdadeira fragmentação. No inverso, a integração inesperada dos aspectos invejosos desconexos pode ter como consequência a manifestação de crises psicóticas, que são respeitáveis no discurso do tratamento psicanalítico.
De fato, dentro da perspectiva psicanalítica, é difícil vencer certos pontos cruciais dos laços vivenciados, representado pelo aproveitamento e melhoras reais obtidas pelo sujeito dentro do vínculo, pois este, devido à excessiva inveja que sente do par amoroso, se desfaz logo do alívio e das melhoras alcançadas. 
Em Melanie Klein (1957), com a regressão e a piora que a seguir se instala, não só diminui sua inveja como também expia a culpa correspondente. Na dupla amorosa, o sujeito ciumento-invejoso sentirá extrema dificuldade em sentir satisfeito com sua posição positiva dentro da relação. De sorte, para evitar a inveja do par amoroso, os progressos realizados, para serem bem aceitos, devem ser lentos e graduais. É aqui que a análise entra, na tentativa de levar o sujeito ciumento-invejoso a busca de reconhecer a sua condição de invejoso, para futuramente, de forma gradual, reconhecer a gratidão que venha a se instalar. Levando em conta, ser uma tarefa muito difícil aceitar o alívio, felicidade e bem-estar porque está implícita a necessidade de poder expressar gratidão.
A gratidão, inveja e ciúme são sentimentos difíceis de elaboração e, ainda mais, de serem identificados e compreendidos em nós mesmos, de maneira especial quando considerados em sua grandeza, significação e profundez exatas.
Para Melanie Klein (1957), mesmo a gratidão – que é baseada em sentimentos amorosos – é com facilidade confundida com o que se nomeia de “falsa gratidão”. Esta, ao invés de estar ligada à confiança e aceitação do bom objeto, bem como do reconhecimento do que dele se recebeu e à necessidade de retribuir a gratificação obtida, é primariamente um procedimento que tenta manter controlado o objeto, considerado perseguidor, através do seu aplacamento por meio de conduta aparentemente adequada e oferendas.
De tal modo, talvez o fato que acabara de ser mencionado pode se fundar em um exemplo das robustas resistências em focalizar este tema emocionalmente tão envolvente para todos, tanto para o sujeito ciumento como para o par amoroso.
Podemos utiliza de uma fábula para elucidar o funcionamento da psique daquele que vivencia veementemente o sentimento de inveja, aqui no caso o ciumento patológico.  A fábula narra a história de certa ocasião, em que um homem extremamente invejoso de seu vizinho, recebe a visita de uma fada, que lhe dá a possibilidade de realizar um único desejo, então disse a fada ao homem: peça o que desejar, desde que seu vizinho receba em dobro. O invejoso em seguida respondeu, quero que lhe arranque um olho.
A moral da fábula é nítida, o prazer do ser humano em ver o seu próximo se prejudicar prevalece sobre qualquer desejo de benefício pessoal, embora seja uma satisfação pessoal de ver o outro sofrer. Não é preciso ir muito longe, na perspectiva do pensar, para chegar à conclusão da psicanalista Klein (1974) de que a inveja é uma característica poderosíssima na erosão das raízes do sentimento de amor e gratidão, de modo a afetar a relação mais ancestral de todas, a relação com a figura materna. A veridicidade radical da manifestação da inveja é o seu impulso destrutivo, por levar o sujeito a incidir e destruir o objeto bom, cujo a introjeção é o alicerce do funcionamento psíquico. Esse afeto, por nem sempre ser consciente, inibe a assimilação de experiências boas e, deste modo, a possibilidade de integração com a psique.
De acordo com a autora, a inveja não é produto da decepção ou frustração, ela é parte da vida psíquica do sujeito desde a tenra infância independente das atitudes da figura materna e do seu ambiente oferecido. Pelo adverso, a inveja emana do próprio sujeito, sendo sentimento endógeno. Em contrapartida, para Winnicott (1971), a inveja é fator secundário, proveniente de uma falha na elaboração do ambiente, sendo a relação mãe-bebê fator primordial para acolher o sentimento de inveja da criança, contribuindo para uma boa resiliência do sentimento de inveja.
 Para Martino (2015), o medo de perder é filho do desejo de posse. O que nos revela que o sujeito enciumado somente aprenderá a reconhecer a realidade depois de experimentar a sensação de que essa realidade é uma extensão de seu desejo. Freud (1821) traz uma realidade interessante: “se nós mesmos não podemos ser os favoritos, pelo menos ninguém mais o será”, “só ama o outro quem ama a si mesmo; só ama a si mesmo quem foi amado pelo outro” (Martino, 2015). Em outras palavras, o sujeito enciumado inseguro de si mesmo troca aquela coisa que mais tem habilidade por aquilo de que não é capaz.
Tal reflexão faz alusão ao pensamento de Bion (1967) em que traz a proposta de realidade última, que depende funcionalmente da capacidade de tolerar frustrações. Para o intolerante (o ciumento), é melhor não ver, não saber. Essa tolerância só é obtida em dois momentos, no primário, com a figura materna e no secundário, com a figura analista. A primeira tende a ser menos árdua que a segunda, por tratar-se de uma demanda interna maior, para elaboração do sujeito.

Maicon José de Jesus Vijarva
Escritor e Psicoterapeuta
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sexta-feira, 5 de agosto de 2016

A Dupla Frustrada: uma resistência à mudança catastrófica.

Quando nos referimos à dupla dentro de uma analise (analisando e analista) nem sempre ela vai elucidar uma mudança catastrófica, em que Wilfred Ruprecht Bion (1897 — 1979)  nos orienta ser o essencial dentro de uma analise.
        
Wilfred Ruprecht Bion
(1897 — 1979)
A mudança catastrófica é uma transição de K (conhecimento) para Ó (realidade ultima), ou seja, é uma abertura ao um novo universo que por outrora gera medo e desconforto, onde a resistência aparece como meio de evitar a frustração que é gerada nessa transição de expansão do pensamento.
“Diz Bion que a resistência a esse tipo de mudança é um sinal não só da existência da mente, da existência da realidade ultima, mas do medo que as pessoas têm de crescer e de passar de K para Ó.” (REZENDE, 1994, pg. 190)
         
Galileu Galilei
(1564 — 1642)
Podemos assim exemplificar a história de Galileu Galilei (1564 — 1642), físico, matemático, astrônomo e filósofo italiano, com os cientistas, onde quando pede a eles que observem que os astros se movem os mesmos recusam-se a olhar, pois querem se manter na teoria de Aristóteles que afirma que os astros não se movem. Se os cientistas aceitassem olhar, o universo mental deles viria a baixo e eles seriam obrigados a crescer.
 
“A interpretação que faz crescer é um ato de conhecimento, e a resistência ao crescimento pode muito bem começar como um ataque a K. Atacando K, ataca também os efeitos emocionais, por exemplo, a capacidade criativa desse mesmo par.” (REZENDE, 1994, pg.192)

        
A teoria bioniana sobre a interpretação que gera o crescimento nos refere que a resistência como forma de ataque ao vinculo K, acontece com a dupla frustrada em relação com os quatros critérios para uma boa interpretação, aquela que faz crescer, ou seja, critérios da verdade, da vida, da expansão e da negatividade. Quando o vinculo é atacado podemos dizer que o ataque é a um desses critérios.
        
Bion discorre que a catástrofe pode atingir a curiosidade como desejo de aprender e se expandir quando a mesma não é estática, mas ativa. Tendo relação com K mais principalmente com a evolução de K para Ó, ou seja, a catástrofe compromete a evolução do aprendizado ao crescimento psíquico, quando isso ocorre não há possibilidade de passar de K para Ó.

         
Para restabelecer o vinculo o analista precisa saber reconhecer e lidar com o seu lado psicótico da mente para assim saber lidar com o ataque psicótico do paciente ao vinculo tornando se capaz de ser continente para o excesso de identificação projetiva, pois este paciente esta usando mecanismos psicóticos para se comunicar com o analista e se o mesmo não souber decifrar esse mecanismo é como se o próprio analista estivesse atacando o vinculo. 
REZENDE,Antonio Muniz, A metapsicanálise de Bion, além dos modelos. Ed.Papirus, 1994




Jessica Kemelly Marques
Ψ Psicoterapeuta/Psicanálise
Contato: (17) 3249-4781/ 99154-5310

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Ser, Nada Mais Que Real

Nos deparamos com um mundo complexo e repleto de possibilidades, algumas questões nos movem a pensar quem somos, em essência. Podemos ser quem desejarmos, podem afirmar alguns, não somos nada, respondem outros. O que diremos pois, diante de tal vicissitude?
Desde o nascimento da filosofia, em berço grego, várias cogitações se nos foram apresentadas, mas  trazendo um pouco ao período mais moderno, temos Descartes, em sua obra “O discurso do método” (1637), endossando “Penso, logo existo”.
Esse existir traz consigo a noção de “ser”, mais do que representar. Ao que parece, o representar tem sido mais utilizado do que o próprio ser em nossa contemporaneidade. Prova disso são os diversos “perfis” nas redes sociais, as fotos “naturalmente forjadas”, os cursos de “apresentação pessoal” entre outros que tomariam muitas linhas desse pequeno pensamento transcrito.
Ser envolve maturidade, responsabilização, e não podemos negar, uma tarefa muito onerosa de rejeição a tudo aquilo que pode ser agradavelmente superficial. Envolve pensamento, despertar de emoções e reconhecimento de limitações, isso tudo em certo mundo sem limites, pluralista e relativo...  Afinal, porque ser apenas eu mesmo? Preciso e desejo agradar, interpretar, preencher, e por que não dizer dissimular?
Mostrar fraqueza a ganho de quê? Nos revestimos então daquilo que o psicanalista D. W. Winnicott (1979) chamou de “falso self”, literalmente um falso eu, que responde ao mundo externo conforme lhe é imposto, ainda que isto lhe custe sua saúde psíquica.
Encontramos no ambiente terapêutico, a possiblidade de sermos nada mais do que nós mesmos. Em ambiente seguro, no vínculo de afeto existente entre terapeuta e paciente, percebemos um outro ser humano que não detém o saber, mas é simplesmente real. Esse conceito nos foi presenteado por outro psicanalista, W. R. Bion (1962) em sua obra “O Aprender com a experiência”, descrevendo a interação transparente ocorrida entre o terapeuta real com um paciente real.
Nesse pensamento, podemos nos lembrar de uma passagem bíblica narrada no livro de Êxodo, capítulo 3, livro este que narra a saída do povo hebreu do Egito, onde eram escravizados. Conta-nos então o capítulo que Deus aparece a Moisés numa chama de fogo em certo arbusto, e lhe diz que ouviu o clamor de sofrimento do povo, e deseja libertá-los por meio da liderança deste homem. Moisés, aterrorizado, questiona como dirá ao faraó do Egito, e ao próprio povo hebreu, que serão libertos, e  pergunta a Deus “em nome de quem” deve dizer que foi enviado. Deus então lhe diz “diga que o EU SOU QUEM SOU te enviou”. Enquanto poderíamos aguardar um nome misterioso, uma grande lista de atributos e características místicas, o que temos é uma afirmação genuína de ser simplesmente quem se é.
No caos do mundo contemporâneo, conseguir olhar para dentro de si mesmo e “enxergar-se” como alguém dotado de conflitos, paixões e necessidades e capacidades, a fim de conhecer-se a si mesmo, parece quase impossível (se em alguns casos não o for). Mas exemplos como esses nos mostram que vincular-se a alguém que reconhece ser nada mais que real, nos acolhe e nos encoraja a simplesmente “ser quem somos”.





Mical Cavalcante
Psicoterapeuta 
CRP: 06/130689
Contato: 17 98144-7300 / 17 99270-4305

micalpsico@outlook.com

sábado, 2 de abril de 2016

Do desapego antes do fim

            
A Psicanálise nos apresenta a possibilidade de contemplar nosso self (eu) de uma forma mais sensível, e desvelar nosso mundo interno, tão obscuro e quase intocável àquele que afasta de si a responsabilidade de conhecer à si mesmo. Agregando à rica interpretação psicanalítica sobre o eu e os mistérios que englobam nosso psiquismo, podemos fazer uso de outras ferramentas tão ricas quanto a Psicanálise na busca pelo conhecimento do ser. A mitologia, a filosofia, os contos, as religiões enriquecem generosamente o pensamento psicanalítico. E neste sentido, é sobre um aspecto da religiosidade que desejo aqui refletir, e tomar emprestado uma parcela do vasto conhecimento que tem de grado à nos oferecer.
           
Os Vedas traz a tríplice divindade, nomeada Trimúrti (“três formas”) como a forma manifesta da divindade suprema. Esta é formada por três deuses: Brahma, Vishnu e Shiva, sendo cada um a representação de uma parte do ciclo de existência de todas as coisas. Brahma é o criador, aquele que dá inicio a todo o processo, a criação de tudo que há, age pelo modo da paixão. Vishnu é o deus que busca manter, preservar as coisas do mesmo jeito que foram criadas, sem muitas transformações, age pelo modo da bondade. E por último, Shiva, que trabalha pelo modo da ignorância, sendo o destruidor, àquele que põe fim a todo ciclo para que um novo se inicie.
          
  Levando à refletir sobre a durabilidade de nossa existência, e de tudo o que é material, essa filosofia nos faz indagar sobre o porque de nossas ansiedades quanto ao futuro, tão ligadas ao desejo que nos move incessantemente em busca de um tempo que não podemos ter o controle; de nossas angústias quanto ao passado, tão presas à memória, que não nos permite deixar o que passou e vivenciarmos o aqui e o agora. Presos na ignorância do não ser, pela busca de possuir um tempo que não nos possuí.
           
O apego tanto pelo passado, quanto pelo futuro nos cega diante das transformações e possibilidades de expansão. Quando não temos a capacidade de nos desapegarmos, Shiva chega e destrói tudo causando um sofrimento que poderia ser vivenciado de uma maneira menos dolorosa. Entretanto, se aprendendo a dádiva do desapego, temos a chance de passar por cada perda sem desestruturarmos nosso ego, e quando Shiva chegar com sua força destruidora, já não nos encontraremos em desespero pela perda do que na realidade nunca possuímos.

“O que aconteceu só se mantém através da memória, e a memória é seletiva, traiçoeira em potencial, por fundir-se ao conteúdo impensado da mente, invalidando assim sua fidedignidade com a realidade dos fatos. O desejo logo se mostra ilusório, já que o “mais tarde” é mistério. O espaço/tempo do aqui e do hoje é uma graça da existência, o real se faz no agora e aqui.” (Martino, 2015)


            O tempo na realidade é imutável, somos nós que passamos pelo tempo, e de nós só resta o aqui e o agora, o momento da transformação e da realidade. O ontem não se modifica, nada podemos fazer quanto ao passado, apenas aceitá-lo e nos responsabilizarmos pelo que fomos e pelo que nos transformamos. E ainda assim, a compreensão que temos de nós mesmos quanto ao que fomos no passado, é limitada demais, e tentar compreender esse eu que se foi, é ilusão. O que fui à um segundo atrás, já não sou mais. O amanhã é mistério, e viver agarrado a esse mistério traz ansiedades infundadas, desnecessárias.  É no hoje que temos a possibilidade de nos conhecermos, de nos apresentarmos e lançar luz ao desconhecido que há em nós mesmos.




Jéssica Tathyane Barbosa
Psicoterapeuta e escritora
Autora do livro A Depressão e o Pensar: Sob a Perspectiva Psicanalítica
Contato - 17- 99195-8277

 t_ati_jessi@hotmail.com