terça-feira, 3 de julho de 2018

SOBRE O DISTÚRBIO DOS JOGOS

Imagine a seguinte situação, você com uma vida comum onde aparentemente nada de extraordinário acontece, mas, você ouve por toda a parte que você tem que ser o melhor, na escola tem que tirar as melhores notas, em um concurso tem que ficar a frente do outro, no seu trabalho tem que bater metas, ser melhor, fazer melhor, ganhar melhor, é estimulado à competitividade desde cedo, porém, sua vida é comum e aparentemente nada acontece.

Ao anoitecer você dorme e em seus sonhos você é o protagonista, o super herói, faz de tudo, tudo gira em torno de você, mas ao acordar, sua vida ainda é comum…

Desta forma, muitas pessoas podem se sentir assim no decorrer do dia, mas, há aqueles que encontraram uma forma de preencher o vazio já existente que sentiam, através da imersão em uma realidade virtual, onde você controla e faz, você comanda, sem dor, sem aborrecimentos, onde você é o protagonista, estamos falando dos jogos eletrônicos.

Os jogos eletrônicos abordam os mais variados temas e idades, sendo que muitos jogadores desde cedo, descobrem o prazer que a atividade lúdica pode propiciar. Eles são feitos para nos segurarem em frente aos mesmos, possuem enredos com começo, meio e fim cativantes, possuem uma complexa simbologia que muito provavelmente fará com que alguém se identifique com alguma parte do mesmo, algo de um jogo que é detalhadamente planejado e pode custar milhões para ser feito, irá certamente despertar alguma espécie de sentimento em quem os vê.

Com toda esta temática, aliado aos sentimentos de competição dos jovens, inerente às fases do desenvolvimento vital, é possível encontrar um refúgio, onde essa competitividade é potencializada, ou seja, em mundos virtuais, logo, posso ganhar, posso fazer mais pontos, posso ser e saber mais do que você, tudo que na vida real pode não ser possível, aqui eu posso, porém…

Toda esta situação pode estar escondendo algo já existente no sujeito, uma relação com vínculos mal nutridos, sejam estes entre familiares ou amigos, no qual, encontrará toda a sua representatividade em horas e muitas horas diante de jogos eletrônicos, onde é possível utilizá-los como um mecanismo de escape, se iludindo e tornando a realidade favorável para assim poder suportá-la. Desta forma, o sujeito pode até perceber que aquilo está trazendo prejuízos para a sua vida, mas, não consegue parar, pois, o objeto do jogo através de seu avatar lhe proporciona tudo o que pode faltar em suas relações vinculares.

Note que apesar dos jogos eletrônicos serem manufaturados de modo a lhe “segurar” na frente dos mesmos, eles simplesmente não podem ser acusados como os responsáveis, uma vez que, quando o sujeito começa a deixar a vida pessoal e suas relações familiares de lado em prol do jogo, começamos a “VER” um indicativo de que algo não estava sendo conduzido de maneira saudável. Sim, foi utilizada a palavra “VER”, pois, talvez este sujeito já apresentasse diversos sinais muito antes em outras áreas da vida, porém, estes possam ter passados despercebidos por ele, pelos seus familiares ou conhecidos, o que já demonstra um indicativo de uma possível instabilidade em seu funcionamento mental e seus vínculos afetivos.

Também não devemos apontar o dedo, acusar, e sim, procurar entender o que o levou a total situação, para assim acolhê-lo, e olhar novamente com outros olhos, diferente muitas vezes dos vínculos do qual o mesmo se acostumara ao longo de sua vida, que possa ter o levado a atual situação de escape.

Caso o sujeito seja uma criança, deve-se conversar e mostrar que pode haver prejuízos, no qual, não é através da imposição e nem do medo, mas, do respeito e bons cuidados, a fim de nutrir os vínculos afetivos que possam estar apresentando sinais iniciais de instabilidade, pois, para as crianças, as brincadeiras têm o objetivo de prepará-las para sua vida adulta, fantasiando atividades simples com que possam se deparar futuramente, abstratas ou não, e a privação de tais atividades, poderá muitas vezes dificultar o caminho a ser seguido.

Desta forma, existem pessoas que sofrem e pedem ajuda, pois, não conseguem controlar sua interação com jogos eletrônicos, e a mensuração e exposição de assuntos do tipo podem ser úteis no sentido de gerar conversas e novas pesquisas sobre o assunto, mas, como já mencionado, não devemos apontar o dedo, nem acusar, e muito menos patologizar sem um devido cuidado com aquele que sofre.


Referências:
ICD-11 for Mortality and Morbidity Statistics (2018). Disponível em <https://icd.who.int/browse11/l-m/en#/http%3a%2f%2fid.who.int%2ficd%2fentity%2f1448597234>. Acesso em 25 jun. 2018.

MARTINEZ, Viviana Carola Velasco. “O brincar e a realidade”… virtual: videogame, assassinatos e imortalidade. Estilos clin., São Paulo , v. 14, n. 26, p. 150-173, 2009. Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-71282009000100010&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em 25 jun. 2018.

OMS lança nova classificação internacional de doenças. Disponível em <https://nacoesunidas.org/oms-lanca-nova-classificacao-internacional-de-doencas/>. Acesso em 25 jun. 2018.

PEREIRA DE OLIVEIRA, Marcella. Melanie Klein e as fantasias inconscientes. Winnicott e-prints, São Paulo , v. 2, n. 2, p. 1-19, 2007. Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1679-432X2007000200005&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em 25 jun. 2018.

Scholars’ open debate paper on the World Health Organization ICD-11 Gaming Disorder proposal. Disponível em <https://akademiai.com/doi/full/10.1556/2006.5.2016.088> .Acesso em 25 jun. 2018.

Uma discussão sobre o “vício” em videogames. Disponível em <https://pebmed.com.br/uma-discussao-sobre-o-vicio-em-videogames/>. Acesso em 25 jun. 2018.




Ricardo Augusto Nunes
Psicoterapeuta / Psicanálise - CRP 06/142680
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Contato: 17 9-9776-1984
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quinta-feira, 24 de maio de 2018

SOBRE LAÇOS AMOROSOS E NÓS ALIENADOS


Só um milagre faz da destruição uma forma de esperança.
Luiz Felipe Ponde

Amor e ódio são sentimentos responsáveis por promover a união de partes, a ligação das faltas que não se completam, mas unem-se para criar algo com a imensidão que essa junção acende [provoca] em cada um de nós.

São sentimentos que guardam em si uma função de sustentar duas ou mais pessoas em um laço amoroso ou amigável, e também revela em seu desdobramento uma variação que não se prende em saberes, por isso merece um olhar mais cuidadoso.

A rapidez do quotidiano e das relações instantâneas nos impossibilita muitas vezes de pensar melhor, repensar com mais cuidado nossas relações com aqueles que nos unimos para desenhar um percurso. Acreditamos muitas vezes que estamos ligados intimamente a alguém, e muitas vezes possuímos uma rasa capacidade de reconhecer e/ou questionar os efeitos dessa função de vínculo na qual estamos ligados.

Se a possibilidade de pensar melhor emperra, talvez também seja muito difícil perceber e atribuir às conseqüências que esses vínculos podem gerar em nossa vida psíquica.  É desastroso estar ligado profundamente a alguém que pouco conhecemos e, mais ainda, não conseguir nomear através da linguagem a dimensão e a qualidade de identificação desse vínculo tão importante em nossa vida.

Além desses laços direcionados a alguém, existem os grupos, coisas, objetos e também a forma como nos ligamos e relacionamos com o dinheiro. Este ensaio busca fazer-saber sobre a ligação que pode ser construída e cultivada entre o eu e o que se encontra para além dele.

Através desta experiência podemos chegar ao conceito que a qualidade de qualquer vínculo constituído com o outro dependerá da forma como somos capazes de nos relacionar com nós mesmos. Quando dois corpos se unem, inconsciente procuram encontrar nessa experiência de identificação algo que está na ordem do que lhe falta.

A capacidade afetiva de cada ser humano é o que poderá ampliar esse vínculo primário de identificação narcísica para algo que se encontra além, em que ambos possam se desenvolver subjetivamente sem se perder na expectativa do vínculo primário.

O laço amoroso é um processo de construção muito delicado, que implica a partir de uma demanda interna, muitas vezes árdua e pouco [quase nada] elaborada, para esboçar um percurso. Como bem instrui a psicanálise, o início de qualquer vínculo com o outro ocorrerá através de identificações entre as partes e algo muito além que não é possível de ser nomeado.

Há algo no outro [objeto de desejo] que parece preencher a parte que falta no sujeito, oferecendo um sentido outro ao seu vazio. O amor na relação amorosa obstrui muitas vezes quando o amante economiza para que não ocorra a escassez de seu amor para seu objeto amado.

O amor é uma contingência e não há uma ciência sobre ela. Pondé (2017) nos implica a refletir mais ainda sobre a possibilidade do amor, quando descreve:

Para lidar com a contingência, acumula-se alguma sabedoria, e onde há ciência, normalmente, falta sabedoria e sobra certeza. [...] o amor entra pela fresta da porta. Nunca é convidado, mas toma todo o ambiente quando é notado. Encanta pela sua força vital. Pelo desejo de vida que traz consigo.

Por isso, que quando o sujeito ama acredita estar à beira de encontrar a melhor versão de si mesmo. E essa experiência pode ser muito destrutiva para muitos outros, que não conseguem lidar com a dimensão desse amor que não pede licença para entrar.

Na relação amorosa, quando digo “eu te amo”, digo também “amo a mim mesmo através de ti”. Freud é muito preciso ao escrever: quando escolho amar o Outro, escolho amar quem representa a imagem ideal do meu Eu. Podemos expandir um pouco mais com a reflexão de Recalcati, quando diz que o amor pode ter várias faces, e uma delas é sem dúvida a face do embuste, da cegueira, da sugestão, da hipótese, do enamoramento narcísico.

Não é exagero dizer que nos aproximamos das pessoas e coisas muito mais pela expectativa do que imaginamos que elas sejam do que realmente são. O processo que conduz uma construção de laço amoroso verdadeiro necessita contar com um período de dedicação mínima que seja ao reconhecimento básico das partes, que está depois da experiência da identificação.

Segundo Martino, nessa fase do desenvolvimento do laço amoroso existe uma tênue/tenaz fragilidade naquilo que une as partes, que se encontram nesse momento severamente vulneráveis.  A construção e desenvolvimento do verdadeiro laço amoroso necessitam ser sempre um processo lento e que demanda extrema dedicação, por sua origem ser totalmente delicada.

A realidade última [vazio] promove o pensar melhor a respeito do que nos falta. Só somos capazes de pensar sob a experiência do vazio, implicados pelo movimento que falta nos convoca. Mas, como toda reflexão, provavelmente o sujeito pode ser impulsionado pela urgência de sua fragilidade emocional confundir o nó de uma relação perversa [alienação] com um laço amoroso.

Adoecido emocionalmente na autoestima, o sujeito encontra-se incapaz de duvidar, questionar ou de fantasiar. O ser humano fragilizado buscará estabelecer um modelo de vínculo no qual inviabilizará qualquer possibilidade de desconfortos ou tentará encontrar em nome de garantias um comodismo mórbido que obstruirá o contato com a fragilidade que dá cor a vida.

O nó da alienação está anos luz distante do objetivo [individual e partilhado] característico da expansão, desenvolvimento e transformação das partes de um laço amoroso. O sujeito fracassa no vínculo com o outro, por acreditar que seu nó alienado [perverso] seja um laço amoroso, o que impossibilita de fazer-saber sobre si mesmo pela incapacidade de sequer suspeitar de quem realmente seja.

Existe dois modelos de alienação em que podemos nos escorar e fazer morada. O primeiro é quando inseguros de nós mesmos nos unimos ao outro numa ligação parasitário-dependente, tornando-nos parte do outro. Nessa ligação perversa buscamos nos tornar parte daquele do qual estamos vinculados, para não nos responsabilizarmos por qualquer eventualidade do atrito saudável [mesmo que de forma frustrante], que um laço amoroso pode oferecer.

Em seu avesso há um modelo de falsa alienação, que se baseia no domínio-controlador, impondo que o outro seja parte de nós mesmos e nada mais que isso. Para Martino (2013), o sujeito incapaz de desenvolver certas funções, utiliza-se do outro para isso, perdendo o direito de ser ele mesmo, porque parte de si encontra-se sendo desempenhado por outrem.

A vinculação através do nó alienado faz com que o ser humano assuma uma posição de própria negação, que o leva a tornar-se cada dia mais carente de si mesmo, censurando o eu para que o outro possa existir. Na aliança perversa ou nó alienado, o funcionamento mental enfraquece sua capacidade de pensar e repensa melhor sobre si mesmo, o que intensifica ainda mais a própria alienação, atando-se mais ainda a dependência em favor do estado de desesperança.

Ligações como essas cultivam um fruto deficiente de nutrientes e extremamente vulnerável, por levar o peso das marcas amargas em sua raiz. E o que nasce dessa relação alienada-perversa, totalmente ausente de cuidado e amor, poderá viver numa espiral de repetição constante nas próximas gerações, contando apenas com a sorte de encontrar pelo caminho um amor que possa desconstruir essa linhagem perversa.

O impossível pode parecer uma linguagem que nos inibe de pensar além de sua fronteira, mas existe a esperança de transformação. No entanto, para que essa transformação ocorra é necessário que possamos ser capazes minimamente de suportar a devastação que o processo de desconstrução irá implicar em nesse momento da vida.

Esse percurso só é possível através da experiência de um amor que entra sem ser convidado ou da busca pela análise, na tentativa de falar sobre o que atormenta a alma e o corpo e, assim, fazer-saber sobre o que há por trás do sintoma, para poder ingressar na experiência de elaborações promovida pelo movimento analítico e então poder saber-fazer melhor com o que trava e inviabiliza a ação da existência no próprio percurso de vida.



Maicon José de Jesus Vijarva
Psicoterapeuta de Orientação Psicanalítica
Telefone: 017 98151-6943
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terça-feira, 10 de abril de 2018

A PRÁTICA DA PSICANÁLISE



Freud nos escreveu em 1926 que "todo aquele que quiser praticar a análise em outras pessoas se submeta ele próprio a uma análise", desta forma nos diz sobre a existência de algo além do estudo teórico, além dos escritos, algo em que a experiência é capaz de produzir.
Esta observação sobre a experiência também é enfatizada em sua conversa com a "Pessoa Imparcial" em 1926, sendo mencionado:

Como então poderia esperar convencê-lo, [...], quando só posso pôr diante do senhor um relato abreviado e, portanto ininteligível das mesmas, sem confirmá-las pelas próprias experiências do senhor?
                                                                                             
A esta experiência que Freud se refere, equivale a análise pessoal, sendo que, somada ao estudo teórico e a supervisão, temos os três pilares da psicanálise, e através da vivência da experiência dos mesmos, um psicanalista partilhará da esperança de que aconteça a atividade psicanalítica.

[...] qualquer um que tenha sido analisado, que tenha dominado o que pode ser ensinado em nossos dias sobre a psicologia do inconsciente, que esteja familiarizado com a ciência da vida sexual, que tenha aprendido a delicada técnica da psicanálise, a arte da interpretação, de combater resistências e de lidar com a transferência - qualquer um que tenha realizado tudo isso não é mais um leigo no campo da psicanálise. Ele é capaz de empreender o tratamento de perturbações neuróticas e ainda poderá com o tempo alcançar nesse campo o que quer que se possa exigir dessa forma de terapia [...] O trabalho é árduo, grande a responsabilidade [...] - Freud (1926). 

Durante a vivência do candidato (como é chamado por Freud em 1926) a praticar a psicanálise, o mesmo necessitará adquirir pela prática e através de troca de conhecimento com psicanalistas mais experientes o preparo da atividade psicanalítica, sendo que, os mesmos requisitos também são mencionados por Freud (1918), em “Sobre o ensino da Psicanálise nas Universidades”, no qual, nos diz que o candidato a praticar a psicanálise pode encontrar seu campo teórico na literatura, encontros científicos e no contato com outros psicanalistas, como grupos de estudos, por exemplo, a prática propriamente dita será obtida através de sua análise pessoal e os tratamentos efetuados pelo mesmo e termina mencionado sobre a supervisão que deverá ser realizada por outros psicanalistas mais experientes.
Assim, é explicitado durante a obra de Freud a importância do tripé psicanalítico, uma vez que, apenas o conhecimento teórico como muitos podem imaginar, mostrou-se não ser o suficiente, ele tem a sua importância, mas, o candidato a praticar a psicanálise pode experimentar diversas influências, a exemplo da "contratransferência" Freud (1910), no qual, com sua análise pessoal e sua supervisão, ele poderá conduzir de maneira a reconhecer influências como estas em si mesmo, pois, como mencionado por Freud (1910) "[...] nenhum psicanalista avança além do quanto permitem seus próprios complexos e resistências internas [...]" e assim, através da vivência e dedicação a estes três pilares (Teoria, Análise Pessoal e Supervisão), o candidato poderá ser capaz de tratar seus pacientes pela análise.


Referências:

FREUD, Sigmund. Cinco lições de Psicanálise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, V. XI. Rio de Janeiro: Imago, 1910.

FREUD, Sigmund. Uma neurose infantil e outros trabalhos. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, V. XVII. Rio de Janeiro: Imago, 1917-1918.

FREUD, Sigmund. Um estudo autobiográfico, inibições, sintomas e ansiedade, análise Leiga e outros trabalhos. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, V. XX. Rio de Janeiro: Imago, 1925-1926.







Ricardo Augusto Nunes
Psicoterapeuta / Psicanálise - CRP 06/142680
Contato: 17 9-9776-1984
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terça-feira, 13 de março de 2018

QUANDO NOS IDENTIFICAMOS COM O OUTRO


Sabe aquela pessoa que em nosso convívio nos deparamos e quando percebemos estamos sorrindo, gesticulando, atuando ou falando parecidamente a ela? Sim, isso pode ser um sinal da identificação.
Em Psicologia das Massas e Análise do Eu, Freud (2014, p. 100-101) nos diz que "a identificação aspira por dar ao próprio eu uma forma semelhante à do outro eu tomado como modelo [...] o eu toma para si as qualidades do objeto". A identificação também é citada em Horowitz (1991, p. 139), sendo que ela "assimila aspectos da outra pessoa ao eu; preserva a continuidade das formas de ser através das gerações".
Sigmund Freud (1856 - 1939)
Um exemplo notável que Freud descreveu foi o de um pensionato feminino, sendo que uma jovem recebe uma carta e apresenta um ataque histérico de ciúmes e algumas de suas amigas, que sabem do ocorrido irão apresentar o mesmo ataque, através da "infecção psíquica" (FREUD, 2014, p. 102), uma vez que, através da identificação, algumas jovens podem querer estar na mesma situação da jovem que recebeu a carta, aceitando de certa forma o sofrimento uma das outras.
Em sua obra Freud nos cita outros exemplos da identificação, e nos diz que ela não se limitará à pessoa por completa, agindo de forma parcial e apenas em alguns traços, assim, você poderá estar falando, andando, gesticulando ou quem sabe aquela gargalhada muito parecida a de alguém, sendo este próximo ou oriundo dos meios de comunicação.
Desta forma o importante é a reflexão e tornar-se consciente de quais modelos estamos nos identificando e se isso pode estar ocasionando algum sofrimento psíquico em nossas vidas sem nos darmos conta, reflexão e consciência, que somente poderá ser obtida através da psicoterapia e em caso de dúvida, procure a ajuda de um profissional.

Referências:
FREUD, Sigmund. Psicologia das Massas e Análise do EU. Porto Alegre. L&PM, 2014.
HOROWITZ, Mardi. Introdução à psicodinâmica - uma nova síntese. Porto Alegre: Artes Médicas, 1991.



Ricardo Augusto Nunes
Psicoterapeuta / Psicanálise - CRP 06/142680
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segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

GRUPO DE ESTUDO PSICANALISE DO ACOLHIMENTO

GRUPO DE ESTUDO PSICANALISE DO ACOLHIMENTO

Reflexões sobre os possíveis recursos na expansão do pensar.
Estudo das teorias de Freud, Klein, Winnicott e Bion, 
aplicadas na prática da clínica psicoterapêutica.

Presencial, ou via SKYPE 

Turmas às terças e as quartas, sempre das 19:00 às 20:30
Coordenação Prof. Renato Dias Martino
Investimento R$ 70,00 mensais
Inscrições: prof.renatodiasmartino@gmail.com

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

DIÁLOGOS ENTRE ARTE E PSICOTERAPIA

A arte em si não necessariamente busca o encontro com o real, mais se esbarra por sua vez na amostragem da realidade por suas particularidades que se tornam reconhecidas através da percepção.
Os movimentos analíticos de interpretação promovidas ao setting, exigem criatividade e experimentação ao analista, e isso está absolutamente ligado à artena prática psicoterapêutica.
Ambas as composições, me refiro a arte e a psicoterapia, lidam exatamente com a mesma materialidade, que se encontra representadas sensivelmente pelas experiências humanas.
Nesta perspectiva a Psicanálise e cinematografia se encontram no mesmo percurso contemporâneo, onde alguns termos e procedimentos que temos pelas composições cinematográficas estão presentes na Psicanálise. Por estes me refiro à hipnose, fascinação e identificação.
Permito-me começar pelo cinema por sua relação estrita com a Psicanálise, onde pelo menos 4 anos depois da primeira aparição pública de cinema, Freud lançou seu livro “A Interpretação dos Sonhos” onde teorizou grande parte dos conteúdos acerca das dinâmicas oníricas.
Desta forma, é justamente com a abordagem do sonho que a Psicanálise se fundou como teoria do homem, destituindo-se das compreensões psicopatológicas. Assim pelo lançamento de sua obra, Freud se defendeu contra a opinião geral da ciência reconhecendo uma produção fundamental do indivíduo, e uma via aberta para a análise e o inconsciente.
Neste sentido, Freud também se apoiou não só do cinema, mais também das construções dramatúrgicas de Sófocles,onde pareou conceitos primordiais de sua prática, como o de triangulação edípica.
Descobrimos então que, a abertura para o mundo artístico nos traz perspectivas de vértices muito além dos estabelecidos, e nos confrontam aos encontros transformadores e positivos, produtores de novas intensidades, percepções, afetos, o que nos permite uma simbolização em aberto com o mundo muito próximo do real.
Este diálogo está em concordância com a proposta bioniana de psicoterapia(sem memória, sem desejo ou compreensão)onde nos sugere por sua técnica, abrir mão dos falsos limites psicológicos, para entãopromover a expansão dos elementos psíquicos inovadores.
Neste mesmo contexto, Bion também afirma que na clínica, o analista pode ser como um cientista, um artista e um teólogo, o que nos sugere muito mais diligência e jogo de cintura. Assim, a função do artista-analista está em função de um vértice que aumenta a capacidade de percepção e de sensibilidade aos afetos.
Neste percurso artístico temos ainda a imagem para além da arte, somos constituídos por imagens, inicialmente a de nós mesmos (concebida entre os primeiros 6 e 18 meses de idade) até o desenvolvimentopara a identidade por assim dizer.
Aqui entra um ponto interessante deste diálogo, onde a imagem ao mesmo tempo possui duas características aparentes, observa-selimitada ou expansiva.
Limitada em caso de nos mantermos fixados ao que ela pode oferecersomenteenquanto estética, porém expansiva, quando nos reconhecemos como sujeito para além dela, transpassando assim o bloqueio inicial dessa alienação manifesta e nos integrando para além do que se vê. Assim podemos dizer paradoxalmente que somos e não somos tal imagem. 
A imagem nos remete aos sonhos, o que nos liga novamente ao empreendimento do inconsciente, onde é observável pelas obras de Dalí resoluções condensadas do real em formas fantasiosas e distorcidas.
Enquanto psicoterapia, a imagem também possui uma função dentro do setting, o processo do reconhecimento daquilo que nos é íntimo é dado por certa imagem, uma vez que descoberta verdades, podemosnos apegar somente no que está manifesto, e nos distanciar de nós mesmos em um movimento de desintegração.
A manifestação analíticadaquilo que nos compete, é apenas uma parcela de nosso funcionamento, que pelo encontro analíticodestacou sua característica, que por sua vez não poderia ser classificada como a totalidade do eu.
Aqui fica visível que a qualidade da imagem que o psicoterapeuta reflete do seu paciente equivale muito mais à qualquer atribuição de desordem psíquica.
É necessário que aqualidadeintegradorada imagem seja mantida e transposta ao paciente,para que ele se identifique à suas própria natureza, e assim, com o ambiente adequadamente saudável possa elabora-las em sua própria condição.
Mais afinal, o que busca a arte? Aqui temos um questionamento necessário, e que de certa forma, nos falta hoje em dia até no consumo do que seria a própria arte.
Em minha compreensão, uma ação performática de qualquer caráter, por mais elementos artísticos que utilize não poderá garantir o status quo que sustenta a arte sem anteriormente promover consciência e estímulos à capacidade de reflexão acerca da realidade.
A fantasia e simbologia artística devem se manter saudáveis para a manutenção mental do indivíduo que consome o conteúdo artístico e também do coletivo, visando a reformulação de alguma incapacidade social ou fenomenológica que se encontra ali presente no cotidiano, e que pelo fator pós-moderno civilizatório, escapa cada dia mais dos nossos vértices de compreensão.
RIVERA, T. Cinema, Imagem e Psicanálise – Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editor, Ed. 2008.
BION, W. R. Atenção e Interpretação. Trad. Paulo Cesar Sandler – 2ª ed. Rio de Janeiro. Editora Imago, 2006.




Pedro Volpato
Psicoterapeuta
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quarta-feira, 11 de outubro de 2017

O AMOR,REPRESENTAÇÕES AFETIVAS & SUAS NUANCES

Podemos presumir que através dos encontros, somos confrontadosconstantemente pelas variáveis dos afetos, que vão muito além da nossa ínfima compreensão, o amor então se consagrapela potencialidade positiva dos encontros e sua correlata simbolização com o real no outro.
Neste contexto, se torna também compreensível que aquilo queinteratua e define a realidade amorosa parte de um construto elaborado inicialmente para o próprio eu,paraque posteriormente a afeição se encontre digna de um representante exterior.
Na concepção de Baruch Espinoza (1632-1677), perante as afecções externas somos embatidos por encontros felizes que nos concerne aumento de satisfação em vida, e assim fidelizamos a alegria destes encontros, então aquilo que nos enobrece é exercido a partir de então pelo amor.

“O corpo humano pode ser afetado de várias maneiras, pela qual sua potência de agir é aumentada ou diminuída, enquanto outras tantas não tornam sua potência de agir nem maior nem menor” (SPINOZA, 2016 pg. 99).

Neste caminho o amor se torna idealmentearquitetado, se entendido também pelo comparecimento freudiano de ego ideal, ou ideal de ego, que por organização psicológica e afetiva, se mostra combinado à consecução saudável na maturidade do sujeito.

O desenvolvimento do ego consiste num afastamento do narcisismo primário e dá margem a uma vigorosa tentativa de recuperação desse estado. Esse afastamento é ocasionado pelo deslocamento da libido em direção a um ideal do ego imposto de fora, sendo a satisfação provocada pela realização desse ideal. (FREUD, 2006 Vol. XIV).

Assim o contexto de amor é ideal no propósito da experiência e compreensão, por uma espécie ética regidajunto ao outro, que nos posiciona em concordância na própria união, diluindo desta maneira nossas primárias e limitadas percepções narcísicas acerca das dinâmicas sugeridas pelos encontros.
Como qualquer ideal, é imprescindível para sua caracterização que esteja conciliado em alguma representação de realidade, um ideal sem representantes reais se configura numa configuração de construção impensável e inconcebível.  
Na vivência cotidiana é pertinente esta observação,ondea virtualização excessiva, e por vezes sem representantes reais ou conscientes de suas necessidades afetivas, podem caracterizarumarelação avessa ao amor,desde o interesse momentâneo pela configuração dos encontros àsexpectativas individuaise suas satisfações meramente sexuais. Nessas ocasiões é comum nos precipitarmos em qualificar e fidelizar essas emoções, e até o que poderia ser em si uma realidade amorosa.
Uma representação afetiva, por mais que traga grandes traços, eventos ou cuidados positivos, não se equipara (talvez momentaneamente) numa realidade amorosa, que está provinda de toda a base necessária para o seu funcionamento saudável e livre das paixões que independem da verdade em sua constituição.
Desta maneira, o amor é um caminho necessário à existência e de preservação da vida, uma experiência que não se atinge finitude, mais que se exerce e se dedica pela prática e movimentação constante, é um trabalho ético pelo entendimento dos afetos e suas nuances.

Um egoísmo forte constitui uma proteção contra o adoecer, mas, num último recurso, devemos começar a amar a fim de não adoecermos, e estamos destinados a cair doentes se, em consequência da frustração, formos incapazes de amar. (FREUD, 2006 Vol. XIV).





SPINOZA, B.Ética. Trad. Tomaz Tadeu. 2ª ed., 5ª reimp. Belo Horizonte. Editora Autêntica, 2016.
FREUD, S.1914-1916A História do Movimento Psicanalítico, Artigos sobre Metapsicologia e outros trabalhos, Vol. XIV.  Obras Psicológicas Completas, Edição Standard Brasileira – Rio de Janeiro. Editora Imago, 2006.



Pedro Volpato
Psicoterapeuta
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