quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

DIÁLOGOS ENTRE ARTE E PSICOTERAPIA

A arte em si não necessariamente busca o encontro com o real, mais se esbarra por sua vez na amostragem da realidade por suas particularidades que se tornam reconhecidas através da percepção.
Os movimentos analíticos de interpretação promovidas ao setting, exigem criatividade e experimentação ao analista, e isso está absolutamente ligado à artena prática psicoterapêutica.
Ambas as composições, me refiro a arte e a psicoterapia, lidam exatamente com a mesma materialidade, que se encontra representadas sensivelmente pelas experiências humanas.
Nesta perspectiva a Psicanálise e cinematografia se encontram no mesmo percurso contemporâneo, onde alguns termos e procedimentos que temos pelas composições cinematográficas estão presentes na Psicanálise. Por estes me refiro à hipnose, fascinação e identificação.
Permito-me começar pelo cinema por sua relação estrita com a Psicanálise, onde pelo menos 4 anos depois da primeira aparição pública de cinema, Freud lançou seu livro “A Interpretação dos Sonhos” onde teorizou grande parte dos conteúdos acerca das dinâmicas oníricas.
Desta forma, é justamente com a abordagem do sonho que a Psicanálise se fundou como teoria do homem, destituindo-se das compreensões psicopatológicas. Assim pelo lançamento de sua obra, Freud se defendeu contra a opinião geral da ciência reconhecendo uma produção fundamental do indivíduo, e uma via aberta para a análise e o inconsciente.
Neste sentido, Freud também se apoiou não só do cinema, mais também das construções dramatúrgicas de Sófocles,onde pareou conceitos primordiais de sua prática, como o de triangulação edípica.
Descobrimos então que, a abertura para o mundo artístico nos traz perspectivas de vértices muito além dos estabelecidos, e nos confrontam aos encontros transformadores e positivos, produtores de novas intensidades, percepções, afetos, o que nos permite uma simbolização em aberto com o mundo muito próximo do real.
Este diálogo está em concordância com a proposta bioniana de psicoterapia(sem memória, sem desejo ou compreensão)onde nos sugere por sua técnica, abrir mão dos falsos limites psicológicos, para entãopromover a expansão dos elementos psíquicos inovadores.
Neste mesmo contexto, Bion também afirma que na clínica, o analista pode ser como um cientista, um artista e um teólogo, o que nos sugere muito mais diligência e jogo de cintura. Assim, a função do artista-analista está em função de um vértice que aumenta a capacidade de percepção e de sensibilidade aos afetos.
Neste percurso artístico temos ainda a imagem para além da arte, somos constituídos por imagens, inicialmente a de nós mesmos (concebida entre os primeiros 6 e 18 meses de idade) até o desenvolvimentopara a identidade por assim dizer.
Aqui entra um ponto interessante deste diálogo, onde a imagem ao mesmo tempo possui duas características aparentes, observa-selimitada ou expansiva.
Limitada em caso de nos mantermos fixados ao que ela pode oferecersomenteenquanto estética, porém expansiva, quando nos reconhecemos como sujeito para além dela, transpassando assim o bloqueio inicial dessa alienação manifesta e nos integrando para além do que se vê. Assim podemos dizer paradoxalmente que somos e não somos tal imagem. 
A imagem nos remete aos sonhos, o que nos liga novamente ao empreendimento do inconsciente, onde é observável pelas obras de Dalí resoluções condensadas do real em formas fantasiosas e distorcidas.
Enquanto psicoterapia, a imagem também possui uma função dentro do setting, o processo do reconhecimento daquilo que nos é íntimo é dado por certa imagem, uma vez que descoberta verdades, podemosnos apegar somente no que está manifesto, e nos distanciar de nós mesmos em um movimento de desintegração.
A manifestação analíticadaquilo que nos compete, é apenas uma parcela de nosso funcionamento, que pelo encontro analíticodestacou sua característica, que por sua vez não poderia ser classificada como a totalidade do eu.
Aqui fica visível que a qualidade da imagem que o psicoterapeuta reflete do seu paciente equivale muito mais à qualquer atribuição de desordem psíquica.
É necessário que aqualidadeintegradorada imagem seja mantida e transposta ao paciente,para que ele se identifique à suas própria natureza, e assim, com o ambiente adequadamente saudável possa elabora-las em sua própria condição.
Mais afinal, o que busca a arte? Aqui temos um questionamento necessário, e que de certa forma, nos falta hoje em dia até no consumo do que seria a própria arte.
Em minha compreensão, uma ação performática de qualquer caráter, por mais elementos artísticos que utilize não poderá garantir o status quo que sustenta a arte sem anteriormente promover consciência e estímulos à capacidade de reflexão acerca da realidade.
A fantasia e simbologia artística devem se manter saudáveis para a manutenção mental do indivíduo que consome o conteúdo artístico e também do coletivo, visando a reformulação de alguma incapacidade social ou fenomenológica que se encontra ali presente no cotidiano, e que pelo fator pós-moderno civilizatório, escapa cada dia mais dos nossos vértices de compreensão.
RIVERA, T. Cinema, Imagem e Psicanálise – Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editor, Ed. 2008.
BION, W. R. Atenção e Interpretação. Trad. Paulo Cesar Sandler – 2ª ed. Rio de Janeiro. Editora Imago, 2006.




Pedro Volpato
Psicoterapeuta
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quarta-feira, 11 de outubro de 2017

O AMOR,REPRESENTAÇÕES AFETIVAS & SUAS NUANCES

Podemos presumir que através dos encontros, somos confrontadosconstantemente pelas variáveis dos afetos, que vão muito além da nossa ínfima compreensão, o amor então se consagrapela potencialidade positiva dos encontros e sua correlata simbolização com o real no outro.
Neste contexto, se torna também compreensível que aquilo queinteratua e define a realidade amorosa parte de um construto elaborado inicialmente para o próprio eu,paraque posteriormente a afeição se encontre digna de um representante exterior.
Na concepção de Baruch Espinoza (1632-1677), perante as afecções externas somos embatidos por encontros felizes que nos concerne aumento de satisfação em vida, e assim fidelizamos a alegria destes encontros, então aquilo que nos enobrece é exercido a partir de então pelo amor.

“O corpo humano pode ser afetado de várias maneiras, pela qual sua potência de agir é aumentada ou diminuída, enquanto outras tantas não tornam sua potência de agir nem maior nem menor” (SPINOZA, 2016 pg. 99).

Neste caminho o amor se torna idealmentearquitetado, se entendido também pelo comparecimento freudiano de ego ideal, ou ideal de ego, que por organização psicológica e afetiva, se mostra combinado à consecução saudável na maturidade do sujeito.

O desenvolvimento do ego consiste num afastamento do narcisismo primário e dá margem a uma vigorosa tentativa de recuperação desse estado. Esse afastamento é ocasionado pelo deslocamento da libido em direção a um ideal do ego imposto de fora, sendo a satisfação provocada pela realização desse ideal. (FREUD, 2006 Vol. XIV).

Assim o contexto de amor é ideal no propósito da experiência e compreensão, por uma espécie ética regidajunto ao outro, que nos posiciona em concordância na própria união, diluindo desta maneira nossas primárias e limitadas percepções narcísicas acerca das dinâmicas sugeridas pelos encontros.
Como qualquer ideal, é imprescindível para sua caracterização que esteja conciliado em alguma representação de realidade, um ideal sem representantes reais se configura numa configuração de construção impensável e inconcebível.  
Na vivência cotidiana é pertinente esta observação,ondea virtualização excessiva, e por vezes sem representantes reais ou conscientes de suas necessidades afetivas, podem caracterizarumarelação avessa ao amor,desde o interesse momentâneo pela configuração dos encontros àsexpectativas individuaise suas satisfações meramente sexuais. Nessas ocasiões é comum nos precipitarmos em qualificar e fidelizar essas emoções, e até o que poderia ser em si uma realidade amorosa.
Uma representação afetiva, por mais que traga grandes traços, eventos ou cuidados positivos, não se equipara (talvez momentaneamente) numa realidade amorosa, que está provinda de toda a base necessária para o seu funcionamento saudável e livre das paixões que independem da verdade em sua constituição.
Desta maneira, o amor é um caminho necessário à existência e de preservação da vida, uma experiência que não se atinge finitude, mais que se exerce e se dedica pela prática e movimentação constante, é um trabalho ético pelo entendimento dos afetos e suas nuances.

Um egoísmo forte constitui uma proteção contra o adoecer, mas, num último recurso, devemos começar a amar a fim de não adoecermos, e estamos destinados a cair doentes se, em consequência da frustração, formos incapazes de amar. (FREUD, 2006 Vol. XIV).





SPINOZA, B.Ética. Trad. Tomaz Tadeu. 2ª ed., 5ª reimp. Belo Horizonte. Editora Autêntica, 2016.
FREUD, S.1914-1916A História do Movimento Psicanalítico, Artigos sobre Metapsicologia e outros trabalhos, Vol. XIV.  Obras Psicológicas Completas, Edição Standard Brasileira – Rio de Janeiro. Editora Imago, 2006.



Pedro Volpato
Psicoterapeuta
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sexta-feira, 1 de setembro de 2017

A VIDA É SEMPRE UMA APOSTA

Apostar é um risco, uma ideia que percorre o corpo e que escorre pelos dedos das mãos sem sequer dar tempo de preencher a falta que deixa em nosso corpo. Por não existir garantias, o sujeito fica a benefício da esperança [do verbo esperançar], que significa sustentar o desejo produzindo o movimento de si mesmo para tornar o desejo possível de realização. 
Mas para ganhar é preciso que o sujeito seja [ousado e valente], ousado para continuar a desejar e valente para aprender a perder e ser o mínimo possível criativo em presença do vazio que o sentimento de perda promove. Aprender a perder só pode ser possível pelo viés da experiência, que quando nos atravessa faz tornar possível compreender e significar o que representa esse percurso a nós sujeitos do inconsciente.
Infelizmente [ou de maneira feliz], o sujeito tem de haver com o que lhe causa: mesmo que “escolha” viver pela ilusão. O método que os livros de “autoajuda” se propõem, só pode ajudar o próprio escritor que oferece o método, que traz o ganho das cifras em sua conta bancária. Há teóricos que “ensinam” o [treinamento da mente] para condicionar o sujeito, de maneira alienada [politicamente correta], a se encaixar numa sociedade que está doente dos nervos. 
O sujeito insiste em querer criar um método que possa domar a mente, que é uma tarefa que beira o abismo de tão impossível, entre mente e corpo existe o inconsciente que conduz de maneira selvagem o sujeito e que jamais pode ser domado. Podemos aprender a sermos gentis e amáveis para fazer as pazes com ele e assim viver o mais próximo do que “chamamos” de harmonia.  
Métodos de treinamento e condicionamento da mente pode até perdurar por algum período, mas devo alertar que o sujeito sedento por ser desejado é incapaz de sustenta o desejo do outro por muito tempo. O inconsciente é indomável e cobra um alto preço aquém o desafia. 
Sustentar o desejo de transformação [independente de sua causa] deve surgir do próprio sujeito do inconsciente. Por isso é pontual a importância de sustentar vínculos que sejam saudáveis ao aparelho psíquico, uma vez que, basta à existência do inconsciente do sujeito que se defende do seu desejo, gerando um movimento que vai sempre contra e não a favor da realização deste desejo.
Se conselho fosse bom, vendia-se. Por assim dizer, faço sugestivo que corra o risco, aposte em sua análise pessoal. Aposte na sua vida, o preço mais alto a ser pago é aprender a perder, se responsabilizar-se por seu percurso. Um grande e duro osso a se roer.
Se desejar fazer terapia, faça um contato telefônico.
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Maicon Vijarva I Psicoterapeuta de Orientação Psicanalítica.
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segunda-feira, 17 de julho de 2017

AS VIRTUDES DO ANALISTA E SUA RELAÇÃO FENOMENOLÓGICA COM O MUNDO

A relação fenomenológica que se reserva ao homem não deve ser descaracterizada ou progredida de forma desalinhada com sua própria natureza pelo advento do conhecimento estipulado como científico, mais estabelecida numa relação equilibrada entre concordância e posicionamento necessário para que se corresponda em seu desenvolvimento na compreensão do mundo.

“Na investigação dos processos mentais e das funções do intelecto, a psicanálise segue o seu próprio método específico. A aplicação desse método não está de modo algum confinada ao campo dos distúrbios psicológicos, mas estende-se também à solução de problemas da arte, da filosofia e da religião. Nessa direção já produziu diversos novos pontos de vista e deu valiosos esclarecimentos a temas como a história da literatura, a mitologia, a história das civilizações e a filosofia da religião.”(FREUD, 2006 Vol. XVII).

As virtudes que o analista detém surge de sua relação fenomenológica com aquilo que ele pode perceber de si, ou em si pela incisão da externalidade, que em dado momento está para além das habilidades constatadas na própria formulação técnica, ao passo que possa promover para o outro, parte de sua própria experiência, antes mesmo de possuir qualquer contextualização sobre ela.
Wilfred Ruprecht Bion (1897-1979) contribui neste processo com uma posição interessante e expansiva dos recursos fenomenológicos aliados à filosofia, que expressa modelos trabalhados à partir das experiências no que resulta a verdadeira aprendizagem em análise, o que conceitua posteriormente sua própria psicanálise como práxis de determinada filosofia.

“O exemplo bem conhecido é quando ele diz a um paciente: “isso que o senhor está sentindo é o que chamo de inveja”. E poderia acrescentar “é o que eu chamo de inveja kleiniana”. Noutras palavras, a experiência que está sendo vivida pode ser nomeada psicanaliticamente com a ajuda de um conceito que lhe é dado pela teoria kleiniana à respeito da inveja.” (REZENDE, 1994 pg. 28).

Neste contexto, à partir da presença empírica, a organização de cunho teórico vem para acolher e respaldar este conteúdo até então desconhecido pela dupla analítica, trazendo luz acerca dos fenômenos anteriormente imprevistos.
Assim as virtudes enquanto analista resultam das experiências bem sucedidas com suas relações no campo fenomenológico das apreciações e intuições, ao passo que aprimora em sua técnica para nomear, conduzir, ressignificar e reconhecer o que se possa admitir enquanto verdade.
A relação de observação fenomenológica com o mundo externo se qualifica pela indagação ao autoconhecimento e ao saber que se tem das próprias condutas enquanto proposta prática, assim o verdadeiro analista se estabelece com integridade e a curado pela realidade.


“Nessas alturas, serve-se de expressões tais como “o analista real” ou o “analista que é”. E o analista que é, é aquele que se encontra com a Realidade Última na própria mente do paciente. Não se trata de observar a Realidade Última, nem de entendê-la, mas de... ser.” (REZENDE, 1994 pg. 29-30).

Este entendimento se estabelece como virtude pelo reconhecimento de sua própria ignorância, onde passo-a-passo, através da nutrição fornecida por ambientes saudáveis e devidamente conformes podemo-nos expandir em nossas capacidades, entre a busca pelo equilíbrio de nossas instâncias ao caminho que seja possível responsabilizar-se pelas singularidades, concebendo assim consciência e tolerância sobre aquilo que é encontrado.
Neste percurso ainda enquanto fenômeno, Renato Dias Martino como fomentador da psicanálise, também praticante pela perspectiva bioniana e do acolhimento, nos orienta sobre que podemos descobrir em atividade psicoterapêutica;

“Nesse aspecto a psicanálise converge em um modelo que transcende a teoria e se pronuncia numa dimensão onde não existirá técnica que possa suprir a incapacidade no acolhimento.”. (MARTINO, 2015 pg. 68).


Assim a fenomenologia está para a ciência ao mesmo passo que a psicanálise, onde pela formação de cada praticante analista, vem sendo aprimorada e transformada em conteúdo para dar respaldo àquela demanda que ocorre precedendo pelos seus sintomas.






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FREUD, S. 1917-1918Uma Neurose Infantil e Outros Trabalhos, Vol. XVII.  Obras Psicológicas Completas, Edição Standard Brasileira – Rio de Janeiro. Editora Imago, 2006.
REZENDE, M. A. Bion Formador de Analistas. Revista Percurso. São Paulo. Edição pelo Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. nº12,ano VII - 1/1994.
MARTINO, R.D. O Livro do Desapego. São José do Rio Preto. Editora Vitrine Literária, 2015.






Pedro Volpato
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segunda-feira, 26 de junho de 2017

CEREBRO E ALMA

Acreditamos saber muito sobre os mistérios do corpo humano, desenvolvemos cuidados físicos, nos preocupamos em passar cremes para rugas, tomamos vitaminas, fazemos ginásticas e procuramos uma alimentação saudável. Somos treinados para sermos lógicos e objetivos e não para conhecer o complicado mundo do psíquico humano. Assim, pouco nos preocupamos com os cuidados psicológicos, não desenvolvemos habilidades para lidar com o território emocional.  
Partindo do princípio de que o mais próximo que temos de nós somos nós mesmos, podemos verificar que o que pensamos do outro parte do que pensamos de nós. Fazemos nossos juízos a partir do nosso próprio egocentrismo e esquecemos que cada ser humano é uma caixa de segredo a ser explorada. 
Esses tipos de percepções podem nos levar a reflexões do porque o autocontrole do corpo e da mente não passa de ilusão, sonhada pela inocência de nossa vaidade. Nos desconhecemos em demasia, e atormentados com o que desconhecemos, saímos a procura de um endereço que está dentro de nós mesmos. 
Percebemos que, no fundo, somos abraçados pelo mundo de fora. Nosso cérebro (físico) precisa de medicamentos, cremes e vitaminas, mas nossa alma precisa de acolhimento, de quem se preocupe em afagar o eu, protegendo-nos do mundo de fora, para que possamos ter a capacidade de decidir em qual endereço queremos morar. Como bem disse Carl Jung, “quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta”.



Carlos C.P. Paulino
Psicoterapeuta e Escritor
CRP: 06/129514
Contato: (17)  988228451 -
UniCuidar- Clinica de Psicologia -
Rua Dom Pedro I, Nº 2613-

Sala 02 – São José do Rio Preto - SP

quarta-feira, 21 de junho de 2017

O EQUÍVOCO DO SABER E O SOFRIMENTO IMPLICADO NAS TRANSFORMAÇÕES ACERCA DAS CONVICÇÕES

Neste texto, enquanto transformações me refiro às experiências que desenvolve-se como conhecimento, e posteriormente vem sendo tomadas pelas ciências nas contextualizações atuais que são progredidas generalizadamente no curso expansivo da humanidade enquanto sociedade e modernidade.
A posição da ignorância neste sentido vem geralmente acompanhada pela sensação de inferioridade e incerteza quanto ao futuro, nos apresentando certa cota de insegurança frente aos processos da vida.
Por este e outros motivos, manter-se ignorante ao saber enquanto constituinte dependente de uma organização social, nos traz consequências relativas não muito aceitas pela cultura vigente.
Podemos reconhecer que a realidade é composta de vários saberes relativos à parcela daquilo que conseguimos expressar pela análise dos fenômenos perceptíveis à partir da nossa própria posição como sujeito.
O saber neste sentido se faz equivocado na medida que desconhecemos os limites próprios de nossa ignorância inerente, ao passo que nos confundimos pelas representações que construímos acerca da realidade se compactuarmos com a visão ideológica kantiana.
Desta forma, Immanuel Kant (1724-1804) pertinente filósofo alemão nos possibilita que;

“Em contrapartida, o conceito transcendental dos fenômenos no espaço é uma advertência crítica de que nada, em suma, do que é intuído no espaço é uma coisa em si, de que o espaço não é uma forma das coisas, forma que lhes seria própria, de certa maneira, em si, mas que nenhum objeto em si mesmo nos é conhecido e que os chamados objetos exteriores são apenas simples representações da nossa sensibilidade, cuja forma é o espaço, mas cujo verdadeiro correlato, isto é, a coisa em si, não é nem pode ser conhecida por seu intermédio; de resto, jamais se pergunta por ela na experiência.” (KANT, 2001 pg. 96).

A realidade que é apresentada pelas formas destes espaços, se isenta da noção na perspectiva pessoal de ignorância, nos acomete ao engano implicando em convicções acerca dos limites aos quais são possíveis conhecer ou constatar.
A perspectiva e possibilidade de novidades com as recorrentes transformações nos trazem desambiguações frente às perspectivas do saber até então estabelecido, este movimento é bem conhecido pela ciência desde muito cedo, e já provocou grandes desapontamentos durante as descobertas que floresceram.
Neste sentido, Sigmund Freud (1856-1939) criador das propostas psicanalíticas iniciais, também nos adverte em suas obras sobre este contexto experimentado pelas transformações humanas;

“A origem dessa resistência, segundo penso, situa-se em algo mais profundo. No transcorrer dos séculos, o ingênuo amor-próprio dos homens teve de submeter-se a dois grandes golpes desferidos pela ciência. O primeiro foi quando souberam que a nossa Terra não era o centro do universo, mas o diminuto fragmento de um sistema cósmico de uma vastidão que mal se pode imaginar. Isto estabelece conexão, em nossas mentes, com o nome de Copérnico, embora algo semelhante já tivesse sido afirmado pela ciência de Alexandria. O segundo golpe foi dado quando a investigação biológica destruiu o lugar supostamente privilegiado do homem na criação, e provou sua descendência do reino animal e sua inextirpável natureza animal. Esta nova avaliação foi realizada em nossos dias, por Darwin, Wallace e seus predecessores, embora não sem a mais violenta oposição contemporânea. Mas a megalomania humana terá sofrido seu terceiro golpe, o mais violento, a partir da pesquisa psicológica da época atual, que procura provar o ego que ele não é senhor nem mesmo em sua própria casa, devendo, porém, contentar-se com escassas informações acerca do que acontece inconscientemente em sua mente.” (FREUD, 2006 Vol. XVI).

Saber sem reconhecimento da ignorância gera convicções, convicções sem sensibilidade dos fenômenos reais apresentados pela experiência do estável, daquilo que é perceptível e único ao enquadramento transicional nos acarreta fantasia, e na dissolução sofrimento ao embate das perspectivas advindas.
Apesar da ligação de sinônimos que encontramos entre as palavras convicção e fé, há reconhecimento de uma parcela que qualifica a fé como parte extra sensorial da realidade, onde se diferencia da perspectiva simples de uma mera convicção abstrata e baseada em lógicas de cunho racional.
Também desta forma aquele que exerce a fé, faz uso deste caminho assim como aquele que busca a verdade, mesmo fora de qualquer religiosidade construída, onde segue guiado pelo que pode experimentar de si próprio e do mundo, na mesma medida que é possível reconhecer e adquirir os limites de si em tese.

“Fazemos conjecturas, formulamos hipóteses, as quais retiramos quando não se confirmam, necessitamos de muita paciência e vivacidade em qualquer eventualidade, renunciamos às convicções precoces, de modo a não sermos levados a negligenciar fatores inesperados, e, no final, todo o nosso dispêndio de esforços é recompensado, os achados dispersos se encaixam mutuamente, obtemos uma compreensão interna (insight) de toda uma parte dos eventos mentais, temos completado o nosso trabalho e, então, estamos livres para o próximo trabalho.” (FREUD, 2006 Vol. XXII).




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KANT, I. Crítica da Razão Pura 5ª Edição. Lisboa. G.C. – Gráfica de Coimbra Lda. Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.
FREUD, S. 1916-1917 Conferências Introdutórias Sobre Psicanálise Pt. III, Vol. XVI.  Obras Psicológicas Completas, Edição Standard Brasileira – Rio de Janeiro. Editora Imago, 2006.

FREUD, S. 1932-1936 Novas Conferências Introdutórias Sobre Psicanálise e Outros Trabalhos, Vol. XXII. Obras Psicológicas Completas, Edição Standard Brasileira – Rio de Janeiro. Editora Imago, 2006.








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quarta-feira, 24 de maio de 2017

VONTADES & DESEJOS: UMA CONTEXTUALIZAÇÃO POSSÍVEL ENTRE AS REPRESENTAÇÕES CONCEITUAIS DE PRISÃO E LIBERDADE

Quantas vezes já nos percebemos aprisionados pelos nossos desejos?
Quantas vezes nos aproximamos, ou potencializamos o ideal de liberdade perante a realização de nossas necessidades?

Schopenhauer, professor e influente filósofo do século XIX, refletiu e explorou amplamente a questão da vontade humana em suas respectivas obras literárias e filosóficas, criando assim uma identidade própria e relevante para este pensamento em questão. 
Desta forma, Schopenhauer caracteriza que o humano é guiado absolutamente pela sua vontade, onde concentra-se nesta perspectiva, a busca por realiza-las, inicialmente por necessidades básicas e intrinsecamente internas, que vão sendo transformadas e alocadas à constituição psíquica, posteriormente reconhecidas como desejos, advindas pelas expectativas inerentes e unificadas antes mesmo do contato real com a coisa em si.

“Antes a palavra do enigma é dada ao sujeito do conhecimento que aparece como indivíduo. Tal palavra chama-se vontade. Esta, e tão somente esta, fornece-lhe a chave para seu próprio fenômeno, manifesta-lhe a significação, mostra-lhe a engrenagem interior de seu ser, de seu agir, de seus movimentos. ” (SCHOPENHAUER, 2005 pg. 156-157).

A vontade então, é o que rege a vida humana segundo a contribuição experimentada por Schopenhauer, algo que por natureza caracteriza e representa a pulsão de vida, muito íntimo e mistificado como o princípio das ordens das necessidades humanas.
                                  
Enquanto a necessidade não se deve prescindir, e se impõe de maneira direta ao nosso funcionamento, a posição do desejo e suas forças por realizações encontram-se devidamente pré-estabelecidas e revogáveis ao homem.  O encontro entre as representações de prisão e liberdade se torna possível pela distinção daquilo que se encontra necessário ao desenvolvimento integral do sujeito e sua realidade.
Aquilo que, em alusão às ilusões, está alocado como renúncia dessa mesma realidade, tido como satisfação de adoração fictícia ou enganosa, representada aqui pelo ideal de desejo, que se estabelece pelo caráter insatisfatório de nossas realizações acompanhado pela sensação de inconclusão.
Cada vez que agimos exclusivamente e incontestavelmente ao acordo de nossos desejos, ao fim de realiza-los pela posição de intolerância, nos percebemos ainda mais conviventes e fiéis deste ciclo, que por não ter nenhuma objeção inclusa e implicada ao processo, mostra-se como representante único deste círculo de infinidade contínuo, o que associa-se diretamente aos ideais de uma prisão em forma psicológica.

Assim, quando nos encontramos sustentados pela supressão de uma necessidade, experimentamos e sentimo-nos acolhidos por um sentimento mais comum do que conhecemos como liberdade.
A busca pelo discernimento destes fenômenos nos coloca em compreensão dos elementos que na realidade não são de forma alguma desconexos um do outro, assim como todos os outros presentes na realidade, mais que na impensável ação cotidiana vem sendo amplamente confundidos e atrasando o desenvolvimento que mantemos com nós mesmos em nossas relações com a realidade.
Desta forma a atribuição estabelecida aqui acerca dos desejos não exime pela consciência transcorrida todo e qualquer movimento de superação deste fenômeno, pois como as necessidades que são indispensáveis para a vida humana, os desejos, assim como os ideais, se coerentes com a realidade também o são, o desafio em si concentra-se na responsabilidade pessoal adquirida pelas experiências, que mostra-se mais uma vez revigorantes ao autoconhecimento humano, ao passo que podemos refletir e estabelecer novos caminhos pelas capacidades então adquiridas através destas perspectivas.



SCHOPENHAUER, A. 1788-1860 O Mundo Como Vontade e Representação. Primeiro Tomo, tradução, notas e índices por Jair Barboza. São Paulo – SP.  Editora Unesp, 2005.




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