segunda-feira, 26 de junho de 2017

CEREBRO E ALMA

Acreditamos saber muito sobre os mistérios do corpo humano, desenvolvemos cuidados físicos, nos preocupamos em passar cremes para rugas, tomamos vitaminas, fazemos ginásticas e procuramos uma alimentação saudável. Somos treinados para sermos lógicos e objetivos e não para conhecer o complicado mundo do psíquico humano. Assim, pouco nos preocupamos com os cuidados psicológicos, não desenvolvemos habilidades para lidar com o território emocional.  
Partindo do princípio de que o mais próximo que temos de nós somos nós mesmos, podemos verificar que o que pensamos do outro parte do que pensamos de nós. Fazemos nossos juízos a partir do nosso próprio egocentrismo e esquecemos que cada ser humano é uma caixa de segredo a ser explorada. 
Esses tipos de percepções podem nos levar a reflexões do porque o autocontrole do corpo e da mente não passa de ilusão, sonhada pela inocência de nossa vaidade. Nos desconhecemos em demasia, e atormentados com o que desconhecemos, saímos a procura de um endereço que está dentro de nós mesmos. 
Percebemos que, no fundo, somos abraçados pelo mundo de fora. Nosso cérebro (físico) precisa de medicamentos, cremes e vitaminas, mas nossa alma precisa de acolhimento, de quem se preocupe em afagar o eu, protegendo-nos do mundo de fora, para que possamos ter a capacidade de decidir em qual endereço queremos morar. Como bem disse Carl Jung, “quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta”.



Carlos C.P. Paulino
Psicoterapeuta e Escritor
CRP: 06/129514
Contato: (17)  988228451 -
UniCuidar- Clinica de Psicologia -
Rua Dom Pedro I, Nº 2613-

Sala 02 – São José do Rio Preto - SP

quarta-feira, 21 de junho de 2017

O EQUÍVOCO DO SABER E O SOFRIMENTO IMPLICADO NAS TRANSFORMAÇÕES ACERCA DAS CONVICÇÕES

Neste texto, enquanto transformações me refiro às experiências que desenvolve-se como conhecimento, e posteriormente vem sendo tomadas pelas ciências nas contextualizações atuais que são progredidas generalizadamente no curso expansivo da humanidade enquanto sociedade e modernidade.
A posição da ignorância neste sentido vem geralmente acompanhada pela sensação de inferioridade e incerteza quanto ao futuro, nos apresentando certa cota de insegurança frente aos processos da vida.
Por este e outros motivos, manter-se ignorante ao saber enquanto constituinte dependente de uma organização social, nos traz consequências relativas não muito aceitas pela cultura vigente.
Podemos reconhecer que a realidade é composta de vários saberes relativos à parcela daquilo que conseguimos expressar pela análise dos fenômenos perceptíveis à partir da nossa própria posição como sujeito.
O saber neste sentido se faz equivocado na medida que desconhecemos os limites próprios de nossa ignorância inerente, ao passo que nos confundimos pelas representações que construímos acerca da realidade se compactuarmos com a visão ideológica kantiana.
Desta forma, Immanuel Kant (1724-1804) pertinente filósofo alemão nos possibilita que;

“Em contrapartida, o conceito transcendental dos fenômenos no espaço é uma advertência crítica de que nada, em suma, do que é intuído no espaço é uma coisa em si, de que o espaço não é uma forma das coisas, forma que lhes seria própria, de certa maneira, em si, mas que nenhum objeto em si mesmo nos é conhecido e que os chamados objetos exteriores são apenas simples representações da nossa sensibilidade, cuja forma é o espaço, mas cujo verdadeiro correlato, isto é, a coisa em si, não é nem pode ser conhecida por seu intermédio; de resto, jamais se pergunta por ela na experiência.” (KANT, 2001 pg. 96).

A realidade que é apresentada pelas formas destes espaços, se isenta da noção na perspectiva pessoal de ignorância, nos acomete ao engano implicando em convicções acerca dos limites aos quais são possíveis conhecer ou constatar.
A perspectiva e possibilidade de novidades com as recorrentes transformações nos trazem desambiguações frente às perspectivas do saber até então estabelecido, este movimento é bem conhecido pela ciência desde muito cedo, e já provocou grandes desapontamentos durante as descobertas que floresceram.
Neste sentido, Sigmund Freud (1856-1939) criador das propostas psicanalíticas iniciais, também nos adverte em suas obras sobre este contexto experimentado pelas transformações humanas;

“A origem dessa resistência, segundo penso, situa-se em algo mais profundo. No transcorrer dos séculos, o ingênuo amor-próprio dos homens teve de submeter-se a dois grandes golpes desferidos pela ciência. O primeiro foi quando souberam que a nossa Terra não era o centro do universo, mas o diminuto fragmento de um sistema cósmico de uma vastidão que mal se pode imaginar. Isto estabelece conexão, em nossas mentes, com o nome de Copérnico, embora algo semelhante já tivesse sido afirmado pela ciência de Alexandria. O segundo golpe foi dado quando a investigação biológica destruiu o lugar supostamente privilegiado do homem na criação, e provou sua descendência do reino animal e sua inextirpável natureza animal. Esta nova avaliação foi realizada em nossos dias, por Darwin, Wallace e seus predecessores, embora não sem a mais violenta oposição contemporânea. Mas a megalomania humana terá sofrido seu terceiro golpe, o mais violento, a partir da pesquisa psicológica da época atual, que procura provar o ego que ele não é senhor nem mesmo em sua própria casa, devendo, porém, contentar-se com escassas informações acerca do que acontece inconscientemente em sua mente.” (FREUD, 2006 Vol. XVI).

Saber sem reconhecimento da ignorância gera convicções, convicções sem sensibilidade dos fenômenos reais apresentados pela experiência do estável, daquilo que é perceptível e único ao enquadramento transicional nos acarreta fantasia, e na dissolução sofrimento ao embate das perspectivas advindas.
Apesar da ligação de sinônimos que encontramos entre as palavras convicção e fé, há reconhecimento de uma parcela que qualifica a fé como parte extra sensorial da realidade, onde se diferencia da perspectiva simples de uma mera convicção abstrata e baseada em lógicas de cunho racional.
Também desta forma aquele que exerce a fé, faz uso deste caminho assim como aquele que busca a verdade, mesmo fora de qualquer religiosidade construída, onde segue guiado pelo que pode experimentar de si próprio e do mundo, na mesma medida que é possível reconhecer e adquirir os limites de si em tese.

“Fazemos conjecturas, formulamos hipóteses, as quais retiramos quando não se confirmam, necessitamos de muita paciência e vivacidade em qualquer eventualidade, renunciamos às convicções precoces, de modo a não sermos levados a negligenciar fatores inesperados, e, no final, todo o nosso dispêndio de esforços é recompensado, os achados dispersos se encaixam mutuamente, obtemos uma compreensão interna (insight) de toda uma parte dos eventos mentais, temos completado o nosso trabalho e, então, estamos livres para o próximo trabalho.” (FREUD, 2006 Vol. XXII).




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KANT, I. Crítica da Razão Pura 5ª Edição. Lisboa. G.C. – Gráfica de Coimbra Lda. Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.
FREUD, S. 1916-1917 Conferências Introdutórias Sobre Psicanálise Pt. III, Vol. XVI.  Obras Psicológicas Completas, Edição Standard Brasileira – Rio de Janeiro. Editora Imago, 2006.

FREUD, S. 1932-1936 Novas Conferências Introdutórias Sobre Psicanálise e Outros Trabalhos, Vol. XXII. Obras Psicológicas Completas, Edição Standard Brasileira – Rio de Janeiro. Editora Imago, 2006.








Pedro Volpato
Psicoterapeuta
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