sábado, 8 de outubro de 2016
sábado, 3 de setembro de 2016
I Jornada do GEPA
I
Jornada do GEPA
Grupo de Estudo Psicanálise do Acolhimento
Da Capacidade de Vinculação no Mundo Atual
Dia 08 de outubro de
2016, sábado. A partir das 09:00, no Centro Cultural Vasco, Rua São João n°
1840
Boa Vista
Boa Vista
Investimento R$ 30,00
antecipado - Inscrições pelo e-mail prof.renatodiasmartino@gmail.com,
informações pelo fone 17-30113866
Conferencias:
OS RELACIONAMENTOS LÍQUIDOS E AS VIRTUALIDADES
Jessica Kemelly Marques - Psicoterapeuta
Uma reflexão sobre os novos arranjos de
relacionamentos que por outrora tem se tornado cada vez mais líquido. O que faz
com que isso aconteça? Estaríamos em uma nova era de relacionamentos? Essas são
algumas questões que serão abordadas no decorrer da reflexão.
PSICANÁLISE E CONTEMPORANEIDADE: Desafios ao Cuidado
Psicoterapêutico
Mical Cavalcante - Psicoterapeuta
Os desafios do cuidar na contemporaneidade. Das
Vicissitudes importantes ocorrentes desde o nascimento da psicanálise, que prosseguem afetando o sujeito em todas as
eras, até as novas formas de enfrentá-las no presente momento. Com os impactos
do imediatismo do mundo pós-moderno, a intolerância à frustração e ainda as transformações
no conceito de subjetividade, como a psicanálise contribui com suas teorias e
práticas para certa forma de manejo de tais inquietações.
A IMPORTÂNCIA DO OLHAR RECONHECEDOR: Da teoria a
prática clínica
Paulo Henrique de Oliveira - Psicoterapeuta
Descrição: Pensar através da proposta teórica
psicanalítica a constituição do sujeito sob a importância do olhar do outro,
suas implicações; e os desafios da clínica psicanalítica contemporânea.
DESAMPARO E O AMOR SEQUESTRADO: O Complexo da Mãe
Morta
Maicon
Vijarva - Psicoterapeuta
A separação saudável deve dar lugar à criação de uma
mediação para paliar os efeitos traumáticos da ausência e elaborar a integração
no interior do ego da criança. A ausência de afetividade produzirá um
“complexo”, que remonta hipoteticamente o afastamento e falta de interesse
materno, que conduzirá a criança a assumir medidas drásticas, como indiferença
ante o mundo externo e identificação inconsciente com a mãe melancólica.
A PSICANÁLISE E O PENSAR: Dentro e fora do setting
terapêutico.
Aline Fiamenghi Portera Do Carmo - Psicoterapeuta
O pensar gera desconforto e não é bem recebido no
mundo da obrigação do saber, do fazer e da euforia. A contemporaneidade com
suas ferramentas para lidar com o mundo externo deixando a desejar quanto ao
interno.
No setting terapêutico é possível encontrar um
ambiente acolhedor, proporcionando a sensação de amparo através da escuta
cuidadosa e atenta do analista real que não embutirá pensamentos no analisando,
mas deve sim questioná-los. Abre-se a oportunidade de amadurecimento mental para
lidar com os obstáculos do dia-a-dia.
A DEPRESSÃO E O AMAR - Apresentação do livro A
Depresão e o Amar
Thais Regina Pereira e Jéssica Tathyane Barbosa - Psicoterapeutas
e Escritoras
O sujeito em processo depressivo está exposto a
transformação e consequentemente a dor psíquica. Como lidar, e vivenciá-la, de
maneira saudável? O vínculo afetivo vem para nos auxiliar nesta busca
incessante. A vinculação afetiva capaz de ser continente e acolhedora pode
auxiliar no enfrentamento da dor emocional, para transpor com menor sofrimento
e melhor capacidade de se transformar e desenvolver-se.
Jessica Kemelly Marques, Joice
Rodrigues, Thais Regina Pereira,Carlos
Cesar Pedretti Paulino Carlos, Desirèe Leonel D Martino, Jéssica Tathyane, Mical Cavalcante, Maicon Vijarva, Paulo Henrique de Oliveira, Marilda Cicalé, Maria Sonia Dias Aline Fiamenghi e Mara
Raquel Medeiros
segunda-feira, 8 de agosto de 2016
MANEJO DO CIÚME: INVEJA E GRATIDÃO
O ciúme é um importante
sentimento para o indivíduo em sua tenra infância, e tem uma atribuição
respeitável para psicanálise, nos primórdios do desenvolvimento do sujeito. O
que nos revela que sua configuração e efeitos no sujeito dependem da estrutura
que o sustenta. O ciúme tem a característica de ser um estado emocional por
despertar a percepção de uma possível ameaça a um vínculo ou posição de valor,
que produz comportamento que se dispõe a liquidar com essa ameaça.
A partir desta
perspectiva, percebemos que dentre as emoções humanas, o ciúme é um sentimento
comum e deveras importante no desenvolvimento do indivíduo e entre os tipos de
ciúme, o patológico é um sentimento que tem despertado uma visibilidade de
grande proporção e que mereça uma maior atenção em seu manejo na
contemporaneidade.
A motivação que gera o
comportamento ciumento nasce das relações de junções tríade: pensamentos, emoções e ações, movido por um
objeto ameaçador ou a particularidade do vínculo com esse objeto desejado e
invejado. O indivíduo enciumado age no intuito de preservar a si mesmo, a
partir da castração do objeto desejado e invejado em que está veiculado.
Pode-se dizer que o sujeito-ciumento-invejoso não podendo se tornar o objeto
desejado, tende a destruí-lo parcialmente, para que esse objeto-desejado não
seja capaz de se sustentar sem sua presença.
Como podemos perceber,
o ciúme se configura de variadas formas. Por ser uma manifestação afetiva muito
comum, traz consigo uma dificuldade na compreensão de sua configuração entre
ciúme clássico e patológico.
Para melhor
esclarecimento, a diferença entre o ciúme clássico e o patológico é simples. O
primeiro se refere a busca do sujeito em preservar os vínculos, já no segundo,
se refere a busca do sujeito em satisfazer a si mesmo, na tentativa de
aniquilar o desejo do outro: apenas o indivíduo enciumado que pode ser desejado
e ter o seu desejo realizado. É desta forma, que cria em sua mente, um enredo
para justificar externamente as suas frustrações e preocupações com a possível
perda do objeto desejado.
Entende-se o ciúme, no
senso comum, como uma disposição de domínio, emaranhado com o outro, no outro.
Mas, de acordo com nossas reflexões de ciúme, podemos notar que essa
classificação se encaixa melhor na posição de ciúme patológico. Devido a
vontade de possuir, a ausência de confiança, identificação com o melancólico.
Essas características dificultam a relação conjugal ou relação com outras
pessoas da sociedade.
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(1927 - 2012) |
É interessante citar
aqui, o escritor e psicanalista contemporâneo André Green (1927 - 2012), que descreve em 1988 essa
figura materna como ausente e propulsora das identificações do sujeito com o
melancólico, com a dificuldade de elaboração de frustrações, na problemática em
se relacionar com o outro ou de percebê-lo como sujeito subjetivo, imponderado
de um outro universo além do sujeito de ciúme patológico.
O universo do indivíduo
ciumento não consegue ser capaz de distinguir imaginação, fantasia e realidade.
Tudo se mistura, sem espaço para percepção consciente. No entanto, quando
ocorre essa percepção consciente, o ciumento de grau patológico nega e se
retraí, na tentativa de buscar formas para se reestruturar internamente. O que
o ciumento patológico procura é o controle total dos sentimentos, da atenção e
do comportamento do outro.
No ponto de vista de
Lacan (1988) o desejo do homem encontra seu sentido no desejo do outro, não
tanto porque o outro detenha as chaves do objeto desejado, mas porque seu
primeiro objeto (do desejo do homem) é ser reconhecido pelo outro. Se o
ciumento patológico não conseguir ser reconhecido por ser o que é, o fará de
forma forçada, na tentativa de se impor como sujeito a ser desejado por aquele
em que ele projetou seu desejo.
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Melanie Klein (1882 — 1960) |
Para Melanie Klein
(1957), define a inveja e a distingue da voracidade e ciúme através da ação dos
diversos mecanismos de defesa e das relações de objeto. Na gratidão a autora
descreve ser um sentimento impulsionador do desejo de retribuir a satisfação (o
seio materno, fonte de prazer) conseguida e leva à separação, permitindo também
as sublimações.
Se entendemos que o
ciúmes clássico é uma forma de sentir ameaçado por investidas externas, e que
essa ameaça impulsiona o sujeito ciumento a nutrir o vínculo na intenção de
preservar. Na inveja excessiva intrínseca no sujeito ciumento patológico, leva,
habitualmente, à dissociação das partes consideradas más, com as consequentes
divisões que sofre o ego, podendo causar mesmo verdadeira fragmentação. No
inverso, a integração inesperada dos aspectos invejosos desconexos pode ter
como consequência a manifestação de crises psicóticas, que são respeitáveis no
discurso do tratamento psicanalítico.
De fato, dentro da
perspectiva psicanalítica, é difícil vencer certos pontos cruciais dos laços
vivenciados, representado pelo aproveitamento e melhoras reais obtidas pelo
sujeito dentro do vínculo, pois este, devido à excessiva inveja que sente do
par amoroso, se desfaz logo do alívio e das melhoras alcançadas.
Em Melanie Klein
(1957), com a regressão e a piora que a seguir se instala, não só diminui sua
inveja como também expia a culpa correspondente. Na dupla amorosa, o sujeito
ciumento-invejoso sentirá extrema dificuldade em sentir satisfeito com sua
posição positiva dentro da relação. De sorte, para evitar a inveja do par
amoroso, os progressos realizados, para serem bem aceitos, devem ser lentos e
graduais. É aqui que a análise entra, na tentativa de levar o sujeito
ciumento-invejoso a busca de reconhecer a sua condição de invejoso, para
futuramente, de forma gradual, reconhecer a gratidão que venha a se instalar.
Levando em conta, ser uma tarefa muito difícil aceitar o alívio, felicidade e
bem-estar porque está implícita a necessidade de poder expressar gratidão.
A gratidão, inveja e
ciúme são sentimentos difíceis de elaboração e, ainda mais, de serem
identificados e compreendidos em nós mesmos, de maneira especial quando
considerados em sua grandeza, significação e profundez exatas.
Para Melanie Klein
(1957), mesmo a gratidão – que é baseada em sentimentos amorosos – é com
facilidade confundida com o que se nomeia de “falsa gratidão”. Esta, ao invés
de estar ligada à confiança e aceitação do bom objeto, bem como do
reconhecimento do que dele se recebeu e à necessidade de retribuir a
gratificação obtida, é primariamente um procedimento que tenta manter
controlado o objeto, considerado perseguidor, através do seu aplacamento por
meio de conduta aparentemente adequada e oferendas.
De tal modo, talvez o
fato que acabara de ser mencionado pode se fundar em um exemplo das robustas
resistências em focalizar este tema emocionalmente tão envolvente para todos,
tanto para o sujeito ciumento como para o par amoroso.
Podemos utiliza de uma
fábula para elucidar o funcionamento da psique daquele que vivencia
veementemente o sentimento de inveja, aqui no caso o ciumento patológico. A fábula narra a história de certa ocasião,
em que um homem extremamente invejoso de seu vizinho, recebe a visita de uma
fada, que lhe dá a possibilidade de realizar um único desejo, então disse a fada
ao homem: peça o que desejar, desde que seu vizinho receba em dobro. O invejoso
em seguida respondeu, quero que lhe arranque um olho.
A moral da fábula é
nítida, o prazer do ser humano em ver o seu próximo se prejudicar prevalece
sobre qualquer desejo de benefício pessoal, embora seja uma satisfação pessoal
de ver o outro sofrer. Não é preciso ir muito longe, na perspectiva do pensar,
para chegar à conclusão da psicanalista Klein (1974) de que a inveja é uma
característica poderosíssima na erosão das raízes do sentimento de amor e
gratidão, de modo a afetar a relação mais ancestral de todas, a relação com a
figura materna. A veridicidade radical da manifestação da inveja é o seu
impulso destrutivo, por levar o sujeito a incidir e destruir o objeto bom, cujo
a introjeção é o alicerce do funcionamento psíquico. Esse afeto, por nem sempre
ser consciente, inibe a assimilação de experiências boas e, deste modo, a
possibilidade de integração com a psique.
De acordo com a autora,
a inveja não é produto da decepção ou frustração, ela é parte da vida psíquica
do sujeito desde a tenra infância independente das atitudes da figura materna e
do seu ambiente oferecido. Pelo adverso, a inveja emana do próprio sujeito,
sendo sentimento endógeno. Em contrapartida, para Winnicott (1971), a inveja é
fator secundário, proveniente de uma falha na elaboração do ambiente, sendo a
relação mãe-bebê fator primordial para acolher o sentimento de inveja da
criança, contribuindo para uma boa resiliência do sentimento de inveja.
Para Martino (2015), o medo de perder é filho
do desejo de posse. O que nos revela que o sujeito enciumado somente aprenderá
a reconhecer a realidade depois de experimentar a sensação de que essa
realidade é uma extensão de seu desejo. Freud (1821) traz uma realidade
interessante: “se nós mesmos não podemos
ser os favoritos, pelo menos ninguém mais o será”, “só ama o outro quem ama
a si mesmo; só ama a si mesmo quem foi amado pelo outro” (Martino, 2015). Em
outras palavras, o sujeito enciumado inseguro de si mesmo troca aquela coisa
que mais tem habilidade por aquilo de que não é capaz.
Tal reflexão faz alusão
ao pensamento de Bion (1967) em que traz a proposta de realidade última, que
depende funcionalmente da capacidade de tolerar frustrações. Para o intolerante
(o ciumento), é melhor não ver, não saber. Essa tolerância só é obtida em dois
momentos, no primário, com a figura materna e no secundário, com a figura
analista. A primeira tende a ser menos árdua que a segunda, por tratar-se de
uma demanda interna maior, para elaboração do sujeito.
Maicon José de
Jesus Vijarva
Escritor e Psicoterapeuta
📱17
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sexta-feira, 5 de agosto de 2016
A Dupla Frustrada: uma resistência à mudança catastrófica.
Quando nos referimos à
dupla dentro de uma analise (analisando e analista) nem sempre ela vai elucidar
uma mudança catastrófica, em que Wilfred Ruprecht Bion (1897 — 1979) nos
orienta ser o essencial dentro de uma analise.
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Wilfred Ruprecht Bion (1897 — 1979) |
“Diz Bion que a
resistência a esse tipo de mudança é um sinal não só da existência da mente, da
existência da realidade ultima, mas do medo que as pessoas têm de crescer e de
passar de K para Ó.” (REZENDE, 1994, pg. 190)
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Galileu Galilei (1564 — 1642) |
“A interpretação que faz
crescer é um ato de conhecimento, e a resistência ao crescimento pode muito bem
começar como um ataque a K. Atacando K, ataca também os efeitos emocionais, por
exemplo, a capacidade criativa desse mesmo par.” (REZENDE, 1994, pg.192)
Para restabelecer o vinculo o analista
precisa saber reconhecer e lidar com o seu lado psicótico da mente para assim
saber lidar com o ataque psicótico do paciente ao vinculo tornando se capaz de
ser continente para o excesso de identificação projetiva, pois este paciente
esta usando mecanismos psicóticos para se comunicar com o analista e se o mesmo
não souber decifrar esse mecanismo é como se o próprio analista estivesse
atacando o vinculo.
REZENDE,Antonio Muniz, A metapsicanálise de Bion, além dos modelos. Ed.Papirus, 1994Jessica Kemelly Marques
Ψ Psicoterapeuta/PsicanáliseContato: (17) 3249-4781/ 99154-5310
quarta-feira, 3 de agosto de 2016
O Grupo
Encontros às quartas às 19:00 e sextas às 20:00
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sábado, 2 de abril de 2016
Do desapego antes do fim
“O que aconteceu só se mantém
através da memória, e a memória é seletiva, traiçoeira em potencial, por
fundir-se ao conteúdo impensado da mente, invalidando assim sua fidedignidade
com a realidade dos fatos. O desejo logo se mostra ilusório, já que o “mais
tarde” é mistério. O espaço/tempo do aqui e do hoje é uma graça da existência,
o real se faz no agora e aqui.” (Martino, 2015)
O tempo na
realidade é imutável, somos nós que passamos pelo tempo, e de nós só resta o
aqui e o agora, o momento da transformação e da realidade. O ontem não se
modifica, nada podemos fazer quanto ao passado, apenas aceitá-lo e nos
responsabilizarmos pelo que fomos e pelo que nos transformamos. E ainda assim,
a compreensão que temos de nós mesmos quanto ao que fomos no passado, é
limitada demais, e tentar compreender esse eu que se foi, é ilusão. O
que fui à um segundo atrás, já não sou mais. O amanhã é mistério, e viver agarrado
a esse mistério traz ansiedades infundadas, desnecessárias. É no hoje que temos a possibilidade de nos
conhecermos, de nos apresentarmos e lançar luz ao desconhecido que há em nós
mesmos.
Jéssica Tathyane Barbosa
Psicoterapeuta e escritora
Autora do livro A Depressão e
o Pensar: Sob a Perspectiva Psicanalítica
Contato - 17- 99195-8277
t_ati_jessi@hotmail.com
sexta-feira, 25 de março de 2016
SOBRE A RESPONSABILIZAÇÃO
Neste texto pretendo falar sobre algo que apenas é possível
se o sujeito teve a chance na vida, de ter sido acolhido. A Psicanálise nos
convida para um olhar cauteloso e mais profundo acerca da importância dos
vínculos para a maturação e expansão do eu, é a partir da relação com o outro
que aprendemos a mais sublime das capacidades, o amor. E aprendemos com o outro
a amar-se, tarefa imprescindível para um bom funcionamento mental e para
possibilitar o caminho da expansão do ser.
Um ego com a capacidade de responsabilizar-se pelo que está sendo, antes
deve ter tido um continente que pôde ser responsável por ele e que lhe
proporcionou a oportunidade de auto reconhecimento
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Sigmund Freud (1856-1939) |
Sigmund Freud (1856-1939) traz em 1911 no seu texto
“Formulações sobre os dois princípios de funcionamento mental” a teoria dos
processos mentais que regem o aparelho psíquico. O processo primário: modo
primitivo em que a mente está apenas interessada em satisfazer seu próprio
prazer, até porque ainda não consegue reconhecer a existência do outro. É o
único processo disponível para um bebê, mas que vai nos acompanhar, ele será
necessário, pois utilizaremo-lo para nossa autopreservação. A responsabilização
está ligada a um aparelho psíquico que na maior parte do tempo encontra-se no
processo secundário, este, regido pelo princípio da realidade. Em “Primeiros Passos Rumo à Psicanálise” Renato Dias Martino explica:
“Se no processo primário a lei partia do
afastamento do desconforto independente da realidade, agora no processo
secundário, o referencial é justamente a realidade .” (Martino, 2012)
Para que a responsabilização ocorra é necessário que se
tenha uma real percepção de si e do mundo. Diferentemente do processo primário,
onde ainda não consegue ou não tem a chance de desprender-se da satisfação de
seu prazer, ficando preso ao narcisismo.
Portanto, providos de um bom funcionamento mental nos
encorajamos a responsabilizar-se pelo nosso desempenho em cada vértice da vida
sem se culpar, mas com capacidade de reparação. Interagimos pelo que somos, e
utilizamos do ser para a auto-realização.
“A responsabilização, diferente da culpa, é um
movimento do ego fortalecido, Um ego forte qualifica o ”sujeito desejante”,
aquele que escolhe e expande em direção ao mundo, em nome da realização.” (Martino
em Para Além da Clínica, 2011)
Realizar-se é a parte última de um processo que contou com
as possibilidades de expansão de pensamento e responsabilização. É a
concretização de um sujeito que está guiado para além de seus seis sentidos,
pois ele é capaz de agir pela sua intuição.
Psicoterapeuta
e escritora
Autora do
livro A Depressão e o Pensar: Sob a Perspectiva Psicanalítica
Contato - 17 99101 7531 - thais.1929@hotmail.com
sábado, 12 de março de 2016
A Psicanálise e o Pensar: Na perspectiva da dupla psicanalítica.
É de costume
ouvirmos das pessoas “vivemos dias”, “vivemos em um mundo”. Porém, gostaria de
dizer que sobrevivemos em um mundo onde o “pensar” sobre conteúdos mnêmicos não
é sinônimo de ser uma pessoa forte, segura ou feliz.
O “pensar
sobre” causa desprazer e mal-estar em um mundo onde, somos reféns da obrigação
de “fazer”. A contemporaneidade nos agracia com muitas ferramentas e condições
para sobrevivermos externamente e materialmente falando, mas deixa a desejar
quando o assunto se direciona para um mundo totalmente subjetivo, requerendo
certa calmaria na agitação do dia a dia para “pensar sobre”.
Diante desta
perspectiva a proposta aqui sugerida é que você, querido leitor, possa através
da leitura, refletir e pensar sobre o seu mundo interno, procurar uma escuta
cuidadosa, atenta e, sobretudo acolhedora (um analista) para ter a experiência
de chegar ao insight e tolerar certa cota de frustração.
O “pensar
junto” é quando o individuo se propõe estar diante do outro, neste caso diante
do analista real, para compartilhar tudo aquilo que um dia passou pela sua
mente. O pensar causa tristeza, porque cada vez que tomamos consciência de um
pedacinho da realidade, temos um sentimento de dor, mal-estar, desconforto,
frustração e até pensamos; “talvez eu não sirva”, “não tenho perfil”, “ não me
encaixo”, causando no individuo a sensação de ser indesejado.
“Se o
primeiro e maior desejo do humano é o de ser desejado, também é quebrando esse
desejo narcísico que se olha para o verdadeiro eu.” (Martino, 2011).
O pensar
está ligado aquilo que Freud (1856 - 1939) chamou de autopreservação, portanto,
é uma vicissitude que todo o sujeito humano, a principio possui, se o indivíduo
está impossibilitado de pensar é porque alguém está pensando por ele,
deixando-o em uma posição de conforto e comodismo ou em uma posição passiva de
dominação, subjulgando o individuo e impedindo que ele pense, gerando uma
dominação. Sendo assim, o individuo não tem contato e muito menos consegue
alcançar a capacidade para fortalecer o verdadeiro eu.
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Sigmund Freud (1856 - 1939) |
O “pensar”
dentro do setting terapêutico não funciona pautado na dedução e sim na
intuição. A dedução está limitada ao fenômeno, aquilo que podemos perceber e
distinguir através dos cinco sentidos. Criar um ambiente acolhedor para que o
analisando possa pensar, requer do analista certo desapego da dedução. A
psicanálise não deve usar deduções como método, mas usa a intuição como
ferramenta.
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Immanuel Kant (1724 - 1804) |
Immanuel
Kant (1724 - 1804) diz que podemos conhecer a priori apenas os fenômenos (do
grego, phainomenon, “o que é visto, o que surge aos olhos”), contudo está mais
próximo da dedução (perceptível aos cinco sentidos), não podemos conhecer a
coisa em si. O noúmeno que é a coisa em si e não precisa dos cinco sentidos
para discernir, entra no âmbito da intuição, ou seja, aquilo que é incognoscível,
que não podemos conhecer de fato o que é. Dentro do setting terapêutico o que
acontece é o noúmeno e não o fenômeno.
O sujeito
que vive restringido à dedução e não pode pensar sobre o que acontece a sua
volta, acaba adoecendo, ele se vê obrigado a caminhar conforme o fluxo tóxico
das massas, tendo que deduzir tudo e todos a sua volta. Todavia, se torna
impossibilitado de pensar sobre o seus conteúdos internos e sobre o que recebe
do mundo externo. Um dos maiores problemas da geração atual é que em grande
maioria, ela não é pensante.
O papel do
analista em hipótese alguma seria embutir pensamentos na cabeça do analisando e
sim o de questionar os pensamentos que este trás para o setting terapêutico,
sempre abrindo mão do fenômeno dedutivo.
Enquanto o mundo
é regido por uma onda de deduções e pela ânsia no conhecimento da verdade,
dentro do setting terapêutico o individuo pode pensar sobre sua ignorância
diante do analista que deve estar, também consciente da sua ignorância não
usando de títulos ou qualquer outra coisa para se colocar numa posição de
superioridade frente ao analisando. Dentro deste cenário podemos citar o mito
da caverna de Platão, onde ele narra um diálogo entre Sócrates e Glauco, o
irmão mais velho do narrador. Segundo conta, as pessoas viviam presas,
acorrentadas dentro da caverna, o que podiam ver eram apenas sombras projetadas
na parede, desconheciam todo o mudo fora da caverna, até que uma pessoa ao
soltar-se vai até a parte externa da caverna, conhece a luz e tudo o que existe
do lado de fora.
Podemos
pensar então que as pessoas que estão do lado de dentro são ignorantes, e as
pessoas que estão do lado de fora são conhecedoras da verdade, entretanto ambas
as pessoas são ignorantes. Isso pois, existem duas modalidades de ignorantes: os
que não têm consciência da sua ignorância e os que têm essa consciência. Jamais
o analista deve pensar que sabe tudo, pois assim se tornará arrogante e com
esta prática um estúpido. "O
arrogante, mesmo não sabendo da realidade, afirma saber, e o estúpido vai além
e “age” como se não fosse ignorante." (Martino em O Livro do Desapego,
2015, p.g. 144)
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Wilfred Bion (1897 - 1979) |
Através da
originalidade de suas contribuições, Wilfred Bion (1897 - 1979) em sua Teoria do Pensar (1962) ,
acrescenta-nos que o pensar emerge como uma saída, uma espécie de recurso para
lidar com a frustração.
“O essencial
é invisível aos olhos, e só se pode ver com o coração.” O Pequeno Príncipe –
Antoine de Saint-Exupéry
Aline Fiamenghi
Psicoterapeuta
aline.fiamenghi.carmo@gmail.com
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